Há uma imagem que resume o momento político português: um gabinete de trabalho, papéis no chão, gavetas abertas, e um vídeo publicado nas redes sociais antes de qualquer autoridade se pronunciar. Não é preciso saber quem entrou, nem o que exactamente desapareceu, para perceber que o verdadeiro dano já foi feito - e não é aos documentos.
O que este episódio revela, acima de tudo, é a fragilidade das instituições perante a velocidade das redes sociais. Antes de a Polícia Judiciária examinar uma única gaveta, o país inteiro já tinha assistido, julgado e escolhido lado. Isso não é informação: é espetáculo, e o espetáculo tem sempre um vencedor definido de antemão, independentemente dos factos.
Também não ajuda que este não seja um caso isolado. Ex-deputados relatam há anos pequenos furtos nos gabinetes - computadores, malas, objetos pessoais - sem que a segurança do Parlamento tenha sido reforçada de forma visível. Um edifício sem câmaras no seu interior, na casa da democracia, é uma escolha, não um acidente, e é sobre essa escolha que os partidos deveriam estar a discutir, em vez de trocarem acusações sobre "vitimização" ou "encenação".
A investigação da PJ dirá o que houver para dizer. Mas o país já perdeu, entretanto, algo mais difícil de recuperar do que umas pens: a capacidade de esperar por factos antes de formar opinião. Isso devia preocupar-nos mais do que qualquer gaveta aberta.