O Centro Interpretativo do Estado Novo - Regime e Resistência foi inaugurado ontem na antiga Escola Cantina Salazar, no Vimieiro, Santa Comba Dão, terra natal de Salazar, depois de cerca de duas décadas de avanços e recuos. O edifício, dos anos 40, foi uma escola modelo do Estado Novo e funcionou como escola até 2009, segundo a presidente da câmara, Inês Matos. O projeto é da câmara, com coordenação científica da Associação Ephemera, fundada por José Pacheco Pereira, e a presença do secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, que defendeu que "estudar a ditadura é uma responsabilidade da democracia". A exposição de abertura é dedicada à censura, e o espaço terá uma sala de aula da época, uma biblioteca temática, debates e conferências. A comissão científica, segundo o Observador, reúne nomes como Marçal Grilo, Irene Pimentel, José Manuel Sobral, José Pedro Castanheira e Maria Inácia Rezola. Houve críticas: Alberto Santos disse que 204 antigos presos políticos escreveram ao primeiro-ministro, com receio de que o centro contribuísse para a "reabilitação da figura de Salazar". Pacheco Pereira respondeu que há dois tipos de crítica, a dos "saudosistas do salazarismo" que queriam um museu de Salazar e a dos que temem a "reabilitação do fascismo", e que ambas têm "uma intenção comum, que é controlarem a história e a memória". O vice-presidente da câmara, Luís Nunes, disse antes da abertura que o objetivo não é "um museu ao ditador", mas que "o ditador também não pode ser escondido". As notícias que li não indicam o custo do projeto nem o seu financiamento.
Convém levar a sério as duas objeções. Quem foi preso e perseguido pelo regime tem razões para temer que o nome de Salazar à porta de uma escola, na terra onde nasceu, atraia a nostalgia em vez do estudo. E quem considera que a ditadura deve ser estudada em todo o país, incluindo no sítio onde nasceu o ditador, também tem um argumento forte: esconder o passado não o apaga, e Pacheco Pereira lembrou que a maioria dos membros da comissão esteve na defesa da liberdade antes e depois do 25 de Abril.
A objeção dos antigos presos não se resolve com uma frase. O secretário de Estado reconheceu que as suas preocupações "merecem ser ouvidas com respeito", e um centro que se quer credível deve mostrar que as ouviu. O risco de apropriação por quem cultiva a nostalgia do regime, que o próprio Alberto Santos identificou, só se mitiga com a qualidade científica do que lá estiver, e com o contexto de cada peça. Uma sala de aula da época com uma fotografia de Salazar na parede funciona como lição se estiver acompanhada do que era ensinado, a quem, e do que acontecia a quem discordava.
O que se pede é concreto. Que o centro publique o programa científico e quem decide o que se expõe, que diga quanto custou e quem pagou, e que passado um ano apresente números e avaliação: quem visitou, de onde, e o que o público ficou a saber. E que a conversa com os antigos presos políticos continue, com o mesmo rigor, depois da inauguração.