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A TRIBUNA DIÁRIA

"Três temas na balança. Onde o consenso ganha forma."
Edição N.º 9 Sexta-feira, 2 outubro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Desporto · A resposta em campo

Portugal venceu sem Ronaldo - e essa frase, há um ano, seria impensável

A Seleção bateu a Dinamarca por 4-2, fora de casa, somando o terceiro triunfo em três jogos "na ressaca da deserção" do capitão. Jorge Jesus não precisava de uma vitória assim para provar o seu ponto - mas não podia ter pedido uma melhor.

42o marcador e o banco vazio

Há exatamente dois dias, Cristiano Ronaldo abandonava a concentração da Seleção prometendo "revelar a verdade". Ontem, Portugal respondeu da única forma que realmente cala polémicas no futebol: a jogar. Um triunfo por 4-2 em Copenhaga, o terceiro em três jogos desta fase da Liga das Nações, sem o capitão histórico em campo.

Não se trata de fazer deste resultado um veredicto definitivo sobre quem tinha razão na polémica - essa discussão vai continuar a arrastar-se nos estúdios de televisão durante dias. Mas há um facto que o resultado torna inegável: a narrativa de que a Seleção "precisa" de Ronaldo para vencer jogos relevantes sofreu, esta semana, um golpe difícil de ignorar.

Isto não diminui o que Ronaldo representa para o futebol português - décadas de serviço, recordes que provavelmente nunca serão batidos, momentos que vão ficar na história do desporto nacional. Mas o papel de um treinador, sobretudo um que chegou prometendo construir algo novo, é precisamente demonstrar que a equipa tem vida própria, independentemente de uma única individualidade, por mais lendária que seja.

O verdadeiro teste para Jorge Jesus não foi vencer este jogo - foi vencê-lo exatamente nesta semana, no meio da tempestade mediática, sem se deixar afetar pela ausência do seu jogador mais mediático. Se há uma "verdade" para contar sobre esta nova era da Seleção, o resultado de ontem já disse a parte mais importante dela.

Sociedade · Um outubro carregado

Oito greves num mês não são um acidente de calendário - são um termómetro

Outubro arranca com uma vasta agenda de greves e protestos que atravessa a função pública, os transportes, a educação, a banca e a AIMA. Quando a contestação social se concentra assim, o problema raramente é apenas salarial.

x8o calendário carregado

Um mês com oito greves anunciadas, abrangendo setores tão distintos como a Administração Pública, os transportes, a educação, a banca e a agência responsável pela integração de migrantes, não é um padrão habitual mesmo para um país habituado a uma certa intensidade sindical. O primeiro dia do mês já ficou marcado pela paralisação nacional dos trabalhadores das carreiras gerais da função pública, motivada por exigências de aumentos salariais e valorização profissional que o Governo tem adiado.

É tentador analisar cada greve isoladamente, como se fossem conflitos sectoriais sem ligação entre si. Mas a concentração de tantas ações de protesto no mesmo mês sugere algo mais estrutural: uma perceção generalizada, em sectores muito diferentes da economia, de que o crescimento dos rendimentos não está a acompanhar o custo de vida, e de que o momento de negociação coletiva de final de ano é a única janela real de pressão disponível.

Há também um elemento de acumulação temporal: muitas destas reivindicações - a revisão de carreiras na função pública, os aumentos na banca, as condições na AIMA - já se arrastam há mais de um ano sem resolução satisfatória. Quando várias frentes de descontentamento amadurecem ao mesmo tempo, a probabilidade de convergirem num mesmo mês de calendário deixa de ser coincidência.

Tratar outubro como "mais um mês de greves" seria um erro de leitura. É mais rigoroso lê-lo como um indicador agregado de pressão social que o país tem adiado enfrentar de forma coordenada - e que vai continuar a reaparecer, sector a sector, enquanto a resposta continuar a ser negociação caso a caso em vez de uma estratégia de rendimentos a sério.

Habitação · O pacto que falta cumprir

Chamar-lhe "pacto de confiança" não resolve o problema que a falta de confiança sempre escondeu

O Governo avançou com nova legislação para simplificar a construção, sob a bandeira de um "pacto de confiança" com o setor. O nome é bonito - mas a crise da habitação nunca foi, no fundo, um problema de confiança. Foi sempre um problema de oferta.

a chave e o andaime

Desde 2024, sucessivos pacotes de medidas para a habitação em Portugal têm repetido a mesma palavra-chave: confiança. "Devolver a confiança" ao mercado, "restabelecer a confiança" dos investidores, criar um "pacto de confiança" para construir. A nova lei anunciada ontem segue este padrão, prometendo simplificar licenciamentos e estabilizar regras para destravar a construção.

A insistência na palavra não é acidental - reflete um diagnóstico real: investidores e promotores imobiliários hesitam em comprometer capital quando as regras do jogo mudam a cada legislatura. Mas há um risco em transformar "confiança" no conceito central do debate: ele desloca a atenção do problema mais básico, que é a escassez estrutural de oferta habitacional face à procura, para um problema mais abstrato de perceção e expectativas.

Simplificar licenciamentos e estabilizar regras são medidas sensatas e bem-vindas. O risco é que, à boleia da palavra "confiança", se acabe por confundir "dar garantias ao mercado" com "resolver a crise habitacional" - e são coisas relacionadas, mas não equivalentes. Um mercado mais confiante pode construir mais casas a prazo; não resolve, por si só, o problema imediato de quem hoje não consegue pagar renda nem entrada para uma casa.

Esta não é mais uma crítica ao princípio de atrair investimento para a construção - é necessário. É um aviso para que não confundamos o meio com o fim: o objetivo nunca foi ter "confiança" no mercado imobiliário. Foi sempre ter casas acessíveis para quem precisa delas. Se a nova lei conseguir as duas coisas, ótimo. Se conseguir apenas a primeira, teremos tido mais um pacto - e a mesma crise.