O líder do Chega anunciou ontem que vai presidir pessoalmente à comissão parlamentar de inquérito, proposta pelo seu partido, aos mandatos de Luís Neves à frente da Polícia Judiciária. O Chega tem deputados suficientes para impor a comissão sem depender de ninguém, e o ministro da Administração Interna respondeu "ainda bem" quando o inquérito foi anunciado, em julho. Em causa estão as obras na casa do ministro em Odemira, um atrelado apreendido num caso de droga e encontrado depois nas instalações da empresa que fez essas obras, e os contratos públicos dessa empresa - matérias que o Ministério Público também investiga.
Escrutinar quem dirigiu durante oito anos a polícia de investigação criminal é do mais legítimo que um Parlamento pode fazer, e ninguém devia contestar à oposição o direito de o fazer. Mas uma coisa é o direito de propor um inquérito, outra é a conveniência de o presidir quem dele fez bandeira política. O mesmo dirigente que escreveu ao primeiro-ministro a exigir a saída do ministro e falou em "podridão do regime" passa agora a dirigir os trabalhos que devem apurar se há, ou não, motivo para tanto.
Isto não prova que o inquérito vá ser injusto. Prova só que parte com um problema de aparência que podia ter sido evitado, e que as aparências, numa comissão de inquérito, contam muito. Um resultado que confirme as suspeitas será lido pelos apoiantes do ministro como acerto de contas; um resultado que as desminta será lido pelos críticos como manobra de bastidores. Em ambos os casos, quem perde é o Parlamento.
Há uma saída simples: regras de equilíbrio claras, perguntas públicas, calendário conhecido e a mesma disponibilidade para ouvir quem defende o ministro e quem o critica. E convém lembrar o essencial: nada do que se disse até aqui está provado, e o Ministério Público ainda não concluiu. Um inquérito sério começa por tratar o visado como inocente até prova em contrário - mesmo quando o presidente da comissão já tem opinião formada.