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A TRIBUNA DIÁRIA

"Três temas na balança. Onde o consenso ganha forma."
Edição N.º 11 Domingo, 4 outubro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Política · O inquérito e o seu presidente

O acusador que preside ao inquérito: quando o árbitro também joga

André Ventura vai presidir à comissão de inquérito que o Chega forçou aos mandatos de Luís Neves na PJ. O escrutínio ao ministro é legítimo - mas a credibilidade de um inquérito mede-se também por quem o conduz.

o martelo e a mesa

O líder do Chega anunciou ontem que vai presidir pessoalmente à comissão parlamentar de inquérito, proposta pelo seu partido, aos mandatos de Luís Neves à frente da Polícia Judiciária. O Chega tem deputados suficientes para impor a comissão sem depender de ninguém, e o ministro da Administração Interna respondeu "ainda bem" quando o inquérito foi anunciado, em julho. Em causa estão as obras na casa do ministro em Odemira, um atrelado apreendido num caso de droga e encontrado depois nas instalações da empresa que fez essas obras, e os contratos públicos dessa empresa - matérias que o Ministério Público também investiga.

Escrutinar quem dirigiu durante oito anos a polícia de investigação criminal é do mais legítimo que um Parlamento pode fazer, e ninguém devia contestar à oposição o direito de o fazer. Mas uma coisa é o direito de propor um inquérito, outra é a conveniência de o presidir quem dele fez bandeira política. O mesmo dirigente que escreveu ao primeiro-ministro a exigir a saída do ministro e falou em "podridão do regime" passa agora a dirigir os trabalhos que devem apurar se há, ou não, motivo para tanto.

Isto não prova que o inquérito vá ser injusto. Prova só que parte com um problema de aparência que podia ter sido evitado, e que as aparências, numa comissão de inquérito, contam muito. Um resultado que confirme as suspeitas será lido pelos apoiantes do ministro como acerto de contas; um resultado que as desminta será lido pelos críticos como manobra de bastidores. Em ambos os casos, quem perde é o Parlamento.

Há uma saída simples: regras de equilíbrio claras, perguntas públicas, calendário conhecido e a mesma disponibilidade para ouvir quem defende o ministro e quem o critica. E convém lembrar o essencial: nada do que se disse até aqui está provado, e o Ministério Público ainda não concluiu. Um inquérito sério começa por tratar o visado como inocente até prova em contrário - mesmo quando o presidente da comissão já tem opinião formada.

Cultura · A voz que fica

Dez canções inéditas, quinze anos depois: o que devemos a quem já não pode dizer não

Um disco com dez temas inéditos de Cesária Évora sai a 16 de outubro. Abrir a gaveta de quem partiu pode ser homenagem ou negócio - e só o critério de quem escolhe distingue uma coisa da outra.

a voz que fica

A 16 de outubro chega às lojas um disco com dez temas inéditos de Cesária Évora, a assinalar os quinze anos da morte da cantora, disse o produtor José "Djô" da Silva à Lusa. Há notícias culturais que parecem pequenas e dizem muito, e esta é uma delas: a "diva dos pés descalços", que morreu em Mindelo em dezembro de 2011, continua a ser, para milhões de pessoas, uma presença e não apenas uma memória.

O mesmo Djô da Silva já tinha passado por esta decisão. Quando Cesária morreu, mostrou-se relutante em lançar um disco póstumo e só cedeu depois de uma enorme onda de homenagens. O resultado, "Mãe Carinhosa", reuniu canções que não tinham cabido noutros álbuns, com o cuidado de manter a exigência que a cantora punha em cada disco. Esse precedente é o melhor argumento a favor: há maneiras de abrir a gaveta sem a esvaziar.

Mas a pergunta existe e convém não a fugir. A indústria discográfica sabe bem que o catálogo de quem partiu é um ativo, e que um inédito vende mais do que uma reedição. A diferença entre homenagem e exploração está no critério: o que se escolhe, o que se deixa de fora, e se a artista, em vida, deixou dito o que queria ou não queria ver publicado. Quem já não pode dizer não merece, pelo menos, que quem decide por si tenha a dúvida como regra.

Há ainda um pormenor que ganha peso neste tempo: a tecnologia já permite fabricar "novas" gravações com a voz de quem morreu. Se se tratar, como tudo indica, de gravações feitas pela própria, dez canções que existiram de facto valem mais do que qualquer imitação perfeita - e talvez seja esse o melhor motivo para as ouvir.

Desporto · O vazio e as versões

A verdade prometida e as versões vendidas

Dias depois da saída de Ronaldo da concentração, o que enche os estúdios e as bancadas não são factos, são versões. No dia em que a Noruega visita o Dragão, vale a pena perguntar quem ganha com o vazio.

o ruído antes do apito

Quando Cristiano Ronaldo saiu da concentração da Seleção, prometeu "revelar a verdade". Dias depois, e no dia em que Portugal recebe a Noruega no Dragão, a verdade continua a chegar-nos em versões: um comentador de televisão garante já saber "a verdadeira história" por trás da saída, e os cartazes de apoio ao capitão e de ataque ao selecionador chegaram ao Porto antes de a bola rolar.

É assim que funcionam os vazios de informação: não ficam vazios. Quando os protagonistas não falam, ou falam só por insinuação, alguém ocupa o espaço, e quem o ocupa raramente tem acesso aos factos - tem apenas a confiança de quem os conta. O resultado é um tribunal paralelo em que cada bancada julga a partir daquilo que já queria concluir.

Há um custo real nisto, e não é só para os envolvidos. Uma seleção nacional pertence, em teoria, a todos, e transformá-la em palco de uma guerra entre fações obriga os jogadores que estão em campo - os mesmos que, esta semana, ganharam sem o capitão - a jogar com um ruído de fundo que nada tem a ver com eles.

A melhor resposta continua a ser a mais simples e a menos espetacular: que os visados falem, se e quando tiverem algo a dizer, e que os restantes esperem sem fingir que sabem. Até lá, a única verdade verificável é a que se joga em campo.