Ontem, a notícia chegou em letras pequenas: a dependência de álcool quase quadruplicou em Portugal numa década. A conclusão vem dos dados oficiais do ICAD, que apontam um agravamento desde 2012, consumos a começar mais cedo e nenhuma melhoria nos indicadores, apesar de mais gente se declarar abstémia. Segundo o inquérito mais recente, cerca de um quinto dos portugueses entre os 15 e os 74 anos bebe álcool todos os dias, e perto de 259 mil pessoas eram consumidoras abusivas ou dependentes em 2022.
É um problema que não faz barulho, e talvez por isso seja tão persistente. O álcool, em Portugal, é cultura, é refeição, é festa, e é também um negócio com peso: o imposto especial sobre bebidas alcoólicas rendeu ao Estado 282,5 milhões de euros em 2024. No mesmo ano, foram aplicadas em Portugal continental apenas 48 contraordenações por venda ou disponibilização de álcool a menores, quando quase metade dos jovens de 18 anos admitia consumos excessivos pontuais no último ano.
Dois números lado a lado não provam má-fé, mas mostram uma assimetria de zelo: o Estado é diligente a cobrar e discreto a fiscalizar. E a dependência, ao contrário do consumo ocasional, não se resolve com campanhas de sensibilização. Pede deteção precoce nos cuidados de saúde primários, tratamento acessível e um sistema que não espere que o doente chegue às urgências com uma doença hepática. Os especialistas dizem-no há anos: a procura de serviços mantém-se estável enquanto o problema cresce, o que sugere muita gente por detetar.
Ninguém precisa de proibir o vinho à mesa para levar isto a sério. Basta fazer o que se faz com outros riscos de saúde pública: fiscalizar a venda a menores, tratar a dependência como doença e não como defeito de carácter, e dedicar à prevenção uma fração do que se arrecada. Enquanto tolerarmos o problema por ser familiar, ele continuará a crescer sem fazer ruído.