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A TRIBUNA DIÁRIA

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Edição N.º 12 Segunda-feira, 5 outubro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Saúde · Um problema que não faz barulho

A dependência de álcool quase quadruplicou - e o Estado cobra mais do que previne

A dependência de álcool quase quadruplicou em Portugal numa década, segundo os dados oficiais. Num país onde o vinho é cultura e o imposto sobre o álcool rende centenas de milhões, o risco é fazer da tolerância uma política.

o copo que enche

Ontem, a notícia chegou em letras pequenas: a dependência de álcool quase quadruplicou em Portugal numa década. A conclusão vem dos dados oficiais do ICAD, que apontam um agravamento desde 2012, consumos a começar mais cedo e nenhuma melhoria nos indicadores, apesar de mais gente se declarar abstémia. Segundo o inquérito mais recente, cerca de um quinto dos portugueses entre os 15 e os 74 anos bebe álcool todos os dias, e perto de 259 mil pessoas eram consumidoras abusivas ou dependentes em 2022.

É um problema que não faz barulho, e talvez por isso seja tão persistente. O álcool, em Portugal, é cultura, é refeição, é festa, e é também um negócio com peso: o imposto especial sobre bebidas alcoólicas rendeu ao Estado 282,5 milhões de euros em 2024. No mesmo ano, foram aplicadas em Portugal continental apenas 48 contraordenações por venda ou disponibilização de álcool a menores, quando quase metade dos jovens de 18 anos admitia consumos excessivos pontuais no último ano.

Dois números lado a lado não provam má-fé, mas mostram uma assimetria de zelo: o Estado é diligente a cobrar e discreto a fiscalizar. E a dependência, ao contrário do consumo ocasional, não se resolve com campanhas de sensibilização. Pede deteção precoce nos cuidados de saúde primários, tratamento acessível e um sistema que não espere que o doente chegue às urgências com uma doença hepática. Os especialistas dizem-no há anos: a procura de serviços mantém-se estável enquanto o problema cresce, o que sugere muita gente por detetar.

Ninguém precisa de proibir o vinho à mesa para levar isto a sério. Basta fazer o que se faz com outros riscos de saúde pública: fiscalizar a venda a menores, tratar a dependência como doença e não como defeito de carácter, e dedicar à prevenção uma fração do que se arrecada. Enquanto tolerarmos o problema por ser familiar, ele continuará a crescer sem fazer ruído.

Sociedade · Uma eleição estrangeira em casa

Mais de 134 mil brasileiros podiam votar em Portugal - e continuamos a falar deles como se fossem de passagem

Lisboa, Porto e Faro receberam ontem as presidenciais brasileiras, com Portugal a ser o segundo maior colégio eleitoral do Brasil no estrangeiro. É o retrato de uma comunidade que já é parte do país, e que o debate sobre imigração raramente quer ver assim.

a fila e a urna

Ontem, em Lisboa, no Porto e em Faro, filas de brasileiros votaram para escolher o próximo Presidente do Brasil. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Portugal tem 134.797 eleitores brasileiros aptos nestas eleições, quase seis vezes o número de 2010, e só Lisboa concentra 78.833, uma operação que o cônsul-geral comparou a "um Maracanã cheio". Portugal é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro no estrangeiro, atrás dos Estados Unidos.

Em 2022, menos de metade dos eleitores inscritos em Portugal compareceu às urnas, o que mostra que se pode ter muitos eleitores e pouca mobilização. Mas o número que importa aqui não é o da participação, é o da dimensão: falamos de uma comunidade do tamanho de uma cidade média portuguesa, com vida, trabalho e família em Portugal, e que ainda assim escolhe o seu Presidente à distância.

A política portuguesa fala muito de imigração e pouco de integração. Discute-se quem entra e quantos, ou as regras da nacionalidade, e esquece-se que boa parte desta comunidade já cá está há anos e que as suas escolhas, as de lá e cada vez mais as de cá, vão moldar o país que construímos em conjunto. O debate sério não é se estas pessoas ficam, é que lugar queremos que ocupem.

A eleição de ontem foi, para os brasileiros, um exercício de cidadania à distância. Para nós devia ser um espelho: Portugal já não é apenas um país que emigra, é um país que acolhe eleitorados inteiros. Tratar essa realidade como um incidente, e não como parte da nossa demografia, é a forma mais segura de falhar a conversa que ela exige.

Economia · O Douro e a vinha por colher

Pagar para não vindimar: o apoio ao Douro resolve o ano, não resolve a região

O Governo criou um apoio de 12 milhões de euros para viticultores durienses que não consigam vender as uvas. É justo ajudar quem produz - mas pagar para deixar a fruta na vinha é o sintoma mais claro de que o problema é estrutural.

o cacho que fica

O Governo aprovou em setembro um regime de exceção, com 12 milhões de euros, para apoiar os viticultores do Douro que não consigam vender a totalidade das uvas na campanha de 2026-2027. A regra é invulgar: o apoio é pago em função da quantidade de uvas que fique por colher, comparando a produção declarada com a média das cinco campanhas anteriores, até ao limite de 1.125 euros por hectare, e os viticultores têm de manter as uvas na vinha até o IVDP as verificar. O tema voltou a ser notícia ontem.

Percebe-se a lógica. Quem tem de escolher entre gastar dinheiro a vindimar uvas que ninguém compra e deixá-las na vinha precisa de um amortecedor, e os pequenos produtores do Douro vivem muitas vezes com margens mínimas. Negar apoio a estes agricultores seria transformar uma crise de mercado numa crise social, numa região que é Património Mundial.

Mas pagar para não colher é um sintoma, não uma solução. No ano passado, o Governo já tinha lançado um apoio às uvas para destilação, e a Confederação Nacional da Agricultura queixou-se de que só 24% dos 15 milhões disponibilizados tinham sido aplicados, com uvas entregues sem preço definido e falta de capacidade de armazenamento. Dois anos seguidos de medidas de emergência dizem que o excedente não é um acidente de calendário: é uma região a produzir mais do que o mercado quer pagar.

Sem uma estratégia mais ambiciosa - reconversão de vinhas pouco competitivas, valorização dos vinhos de maior qualidade, novos mercados, regras claras de transparência nos preços pagos aos produtores - o cheque anual serve só para adiar a pergunta. O Douro não precisa de caridade permanente; precisa que se decida o que quer ser quando o mercado deixar de comprar tudo o que produz.