Foi o primeiro 5 de Outubro de António José Seguro como Presidente da República, e a mensagem cabe numa palavra: compromisso. Pediu uma "nova cultura de compromissos", saudou a aproximação entre o Governo e o PS em torno do Orçamento e apelou à responsabilidade de todos os que exercem funções públicas. Do outro lado, o Chega respondeu que o discurso foi "mais do mesmo", por apelar à união de PSD e PS. Em Lisboa, Carlos Moedas lembrou que a República morre quando os cidadãos deixam de acreditar nela.
Há razões de sobra para valorizar o gesto. Um Orçamento que passa por entendimento, e não à custa de crises, poupa ao país meses de instabilidade, e um Presidente que defende que a política se faz também de cedências está a dizer uma coisa elementar e cada vez mais rara. Poucos eleitores trocariam um acordo imperfeito por um impasse perfeito.
Mas o Chega, mesmo sem querer, aponta um risco real. Quando os dois maiores partidos do centro se aproximam e o Presidente aplaude, quem está fora do entendimento só tem uma narrativa possível: a do sistema a fechar-se sobre si próprio. Compromisso e cartel parecem iguais ao longe, e a diferença está na transparência: o que se cede, a quem, a troco de quê. Um acordo orçamental que se explique bem reforça a democracia; um que se explique mal alimenta exatamente o ressentimento que o Presidente quer combater.
A cultura de compromissos só será nova se vier com uma cultura de explicações. Que Governo e PS digam, preto no branco, o que cada um deu e recebeu, e que a oposição, de esquerda ou de direita, seja convidada a propor alternativas e não apenas a rejeitar. Sem isso, o apelo à união fica bonito no 5 de Outubro e frágil nos outros 364 dias do ano.