O Infarmed proibiu a exportação de 52 medicamentos, entre os quais antidepressivos, analgésicos, antibióticos e fármacos para o tratamento do cancro, numa circular que entrou em vigor ontem. A lista inclui ainda 163 apresentações de quetiapina, um antipsicótico usado na esquizofrenia, na perturbação bipolar e na depressão. No caso da quetiapina, segundo a autoridade, o problema vem de uma suspensão do fabrico imposta por uma contaminação microbiana numa fábrica grega que abastece a maioria dos titulares de autorização de introdução no mercado em Portugal, e os constrangimentos deverão durar até ao fim do ano.
A lista não é uma novidade: é mensal, e uma lista anterior tinha 51 medicamentos. Inclui os que estiveram em rutura no mês anterior com impacto médio ou elevado e os que chegam ao país por autorização de utilização excecional. O Infarmed acompanha as faltas diariamente e o problema, diz, afeta também outros países da União Europeia. Ou seja: o que hoje se resolve com uma circular é o sintoma de que o abastecimento de medicamentos essenciais deixou de ser garantido pelo funcionamento normal do mercado.
Proibir exportações protege os doentes portugueses, e é a decisão certa para quem tem de responder perante eles. Mas é uma solução de soma zero: se cada Estado fecha a porta aos outros, o que se ganha num país perde-se no vizinho, num mercado único em que os medicamentos deviam circular precisamente para ir onde fazem falta. A fragilidade de fundo está a montante: quando o caso da quetiapina mostra que uma única fábrica pode abastecer a maioria dos titulares de autorização num país, basta uma contaminação para faltar um antipsicótico a quem o toma.
A resposta tem de ser europeia e menos reativa: mais de um fabricante por substância crítica, reservas estratégicas, compras conjuntas e regras que obriguem a avisar a tempo de se agir. Até lá, a lista mensal vai continuar a ser publicada, e a única coisa que garante é que o problema continua. Quem depende destes medicamentos deve falar com o médico ou o farmacêutico antes de mudar o que toma: a rutura não deve nunca ser resolvida pelo próprio doente.