A ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, confirmou ontem, à margem do congresso da CNIS, em Aveiro, que a Caixa Geral de Aposentações calculou mal 2.937 pensões atribuídas entre maio e agosto. A causa, disse, foi "uma deficiência técnica no apuramento da pensão", um erro na configuração da aplicação que durou quatro meses e de que só teve conhecimento na terça-feira anterior. Em média, cada pensionista afetado deverá receber menos 93,31 euros brutos por mês do que lhe foi pago, e quem recebeu a mais terá de devolver a diferença.
É difícil exagerar o que isto significa para quem vive de uma pensão. Para uma pessoa que passou a vida a descontar, a reforma é o único rendimento previsível, e o orçamento familiar constrói-se à volta dele. Quase 94 euros por mês, durante quatro meses, não é um arredondamento: é a renda, a farmácia ou a conta da luz de uma casa onde, em muitos casos, já não há margem para devolver nada. O reformado não escolheu o valor que lhe foi pago nem tinha forma de o contestar.
Daí que a questão central não seja técnica, é de justiça. Se o Estado se enganou, e se a falha foi do sistema e não de quem recebeu, a reposição não pode ser tratada como se fosse uma dívida comum. A ministra falou em definir soluções "em conjunto com os afetados" e em várias formas de reposição, o que é razoável como ponto de partida, mas ainda não diz nada de concreto sobre prazos, prestações sem juros ou perdões para os casos mais frágeis.
Convém também saber como se chegou aqui. Quatro meses a pagar com um erro de configuração significa que nenhum controlo interno apanhou a falha, e que foi preciso esperar até outubro para que o assunto chegasse ao topo do ministério. O Parlamento já quer ouvir a ministra e a CGA, e faz bem. O que se pede é simples: um calendário público de correção, uma regra de que o reformado não paga juros nem coimas por um erro que não cometeu, e uma auditoria às aplicações que calculam o rendimento de quem já não tem outro.