A proposta de Orçamento do Estado para 2027, entregue ontem no Parlamento, faz da habitação um "desígnio nacional" e atribui-lhe 2.003 milhões de euros para reforçar a oferta pública e acessível, dos quais 1.071 milhões para programas do IHRU. Há ainda menos IVA na construção, de 23% para 6%, com uma perda de receita estimada em 94 milhões, e um IRS mais baixo para senhorios que pratiquem rendas "moderadas" até 2.300 euros, que custará 209 milhões. O Governo conta também vender imóveis do Estado, com uma receita prevista de 530 milhões.
O volume é considerável e a direção é, em boa parte, a certa: o problema da habitação em Portugal é de oferta, e quem constrói precisa de custos mais baixos e de menos incerteza. Cortar o IVA da construção e financiar o IHRU com aval do Estado vai exatamente nesse sentido, e dar às câmaras mais folga nos empréstimos para habitação acessível é uma medida que as autarquias pedem há anos.
Mas há lacunas que o entusiasmo do anúncio não esconde. A lei das rendas, uma das questões que mais pesa no bolso de quem arrenda, ficou fora do Orçamento e será negociada à parte. A garantia pública para jovens até aos 35 anos está prevista, mas o ministro das Finanças admitiu que ainda não há decisão formal sobre a continuidade. E repare-se na simetria desconfortável: o Estado promete casas para quem precisa e, ao mesmo tempo, prevê encaixar 178 milhões com a venda de habitações, além de 325 milhões em edifícios.
Não há contradição insanável nisto, desde que o que se vende seja património sem uso e o que se constrói chegue de facto a quem precisa. Mas é essa verificação que falta. O que se pede ao Governo e ao Parlamento, entre a generalidade em finais de outubro e a votação final em novembro, é que o número de casas, as rendas e os prazos estejam escritos no Orçamento, e não apenas o montante. Habitação mede-se em chaves entregues, não em milhões anunciados.