A Parpública chegou a acordo com o Grupo Fidelidade para comprar a totalidade da sua participação de 5,3% na REN, elevando para 19% a posição do Estado na empresa que gere a rede elétrica e a rede de gás em alta pressão. O preço não foi divulgado, e a operação depende de visto do Tribunal de Contas. Em setembro, a Parpública já tinha comprado 13,7% à Pontegadea, o veículo de investimento de Amancio Ortega, por 389,8 milhões de euros, a 4,25 euros por ação, um prémio de cerca de 15%. O Ministério das Finanças considera que, "nesta fase", o objetivo de participação está concluído, e o Governo vai indicar um administrador para a REN.
A lógica estratégica é defensável. A rede elétrica é uma infraestrutura crítica, e num momento em que a transição energética exige investimento em ligações e armazenamento, um acionista público com assento no conselho pode pesar mais do que um fundo que só olha para o dividendo. A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, falou em proteger o interesse público e em influenciar a empresa por dentro, e até o Departamento de Estado norte-americano veio saudar o reforço da resiliência das infraestruturas críticas.
Mas uma estratégia não se prova com uma percentagem. O PS acusa o Governo de ter "perdido o tino" e de usar "o tesouro para uma estratégia que nunca sufragou", e a crítica, venha de onde vier, aponta a lacuna certa: a decisão de entrar no capital de uma empresa cotada não foi, que se saiba, discutida com o país, e quase 400 milhões de euros em dinheiro público merecem um caderno de encargos. Para que serve o assento no conselho? Que investimentos quer o Estado empurrar, e a que custo para a fatura de quem a paga? Quem decide, quando o acionista é também o governo que fiscaliza o setor?
Sem estas respostas, a REN fica com um acionista maior e uma estratégia igual. Defender o interesse público numa empresa regulada faz-se com regras claras, transparência sobre a posição do Estado e relatórios públicos sobre o que os administradores nomeados fazem. Comprar a rede foi a parte fácil; explicar o que vem a seguir é a que o país tem direito a ouvir antes de o dinheiro ser gasto.