Ontem, milhares de pessoas saíram à rua em Lisboa e cerca de 1.500, segundo a PSP, no Porto, em protestos convocados pela plataforma "Não dá mais para viver assim", que reúne mais de 30 organizações, entre sindicatos e associações de habitação, de combate ao racismo, de ação climática e de inclusão social. Houve também concentrações em Braga e Aveiro. Em Lisboa, a marcha foi do Largo do Intendente ao Largo de São Domingos, durou cerca de três horas e decorreu sem incidentes. Entre os cartazes, lia-se "Não é uma crise, é uma emergência" e "Menos turismo. Mais bairro".
As reivindicações são conhecidas: controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, tetos às rendas e limites às prestações da casa, mais habitação pública, taxação dos lucros extraordinários da banca, da energia e da distribuição, e fim dos benefícios fiscais à especulação financeira. Algumas destas exigências são discutíveis, e controlos de preços raramente resolvem aquilo que prometem, porque podem reduzir a oferta que se quer aumentar. Mas esse debate técnico não apaga a razão de fundo.
A razão de fundo está nas vozes que as reportagens recolheram. Uma licenciada que trabalha num call center e paga mais de metade do ordenado por um quarto em Chelas. Um jovem de 23 anos que perdeu o emprego e diz que o país "dá zero ajudas". Uma professora de 53 anos que diz que "é preciso fazer alguma coisa". São relatos individuais, não estatísticas, mas descrevem uma experiência partilhada: o rendimento já não acompanha o custo de viver onde se trabalha.
Um governo que acaba de entregar um Orçamento com 2.000 milhões para habitação e mais uma descida do IRS pode responder, com razão, que não está parado. A resposta política, porém, não se esgota em listar medidas. Passa por mostrar, com datas e números, quando é que as novas casas chegam, quanto custa realmente a renda mediana daqui a um ano, e o que se faz entretanto por quem não pode esperar. Uma emergência, para quem a vive, mede-se em meses, não em legislaturas.