Há qualquer coisa de simbólico em Portugal bater um recorde de consumo de fármacos injetáveis antiobesidade num único dia. O número, superior a um milhão de euros, não surge do nada: é a continuação de uma tendência que já em 2025 levou os portugueses a gastar mais de 130 milhões de euros em Wegovy e Mounjaro, com a procura em 2026 a ultrapassar os 600 mil euros diários. É um mercado em explosão e, como todo o mercado em explosão, tem vencedores e excluídos muito bem definidos.
O problema não é o medicamento. É quem consegue pagá-lo. Estes fármacos custam, em média, entre 150 e 300 euros por mês, não são comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde, e continuam fora do alcance de grande parte de quem mais precisaria deles. Enquanto a obesidade continua a ser mais prevalente entre as classes com menores rendimentos, o tratamento mais eficaz de que a medicina alguma vez dispôs para a combater tornou-se, na prática, um produto de nicho.
Há aqui uma ironia incómoda: o Estado gasta anos a debater a comparticipação, enquanto o mercado já decidiu, sozinho, quem tem acesso à saúde metabólica do futuro. Quando a discussão finalmente avançar - e vai ter de avançar -, o desenho da equidade já estará moldado pelos primeiros anos de quem pôde pagar sem esperar.
Um recorde diário de vendas não é motivo de festa. É um indicador, tão preciso como qualquer outro, de que o nosso sistema de saúde está a ser ultrapassado pela própria inovação que devia estar a gerir.