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A TRIBUNA DIÁRIA

"Três temas na balança. Onde o consenso ganha forma."
Edição N.º 2 Sexta-feira, 25 setembro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Saúde · Recorde de vendas de fármacos para emagrecer

Um recorde diário que devia preocupar-nos, não orgulhar-nos

Os portugueses gastaram, num único dia, mais de um milhão de euros em medicamentos para emagrecer. O número é espantoso - mas devia interessar-nos mais o que ele revela do que o que celebra.

a curva que não pára

Há qualquer coisa de simbólico em Portugal bater um recorde de consumo de fármacos injetáveis antiobesidade num único dia. O número, superior a um milhão de euros, não surge do nada: é a continuação de uma tendência que já em 2025 levou os portugueses a gastar mais de 130 milhões de euros em Wegovy e Mounjaro, com a procura em 2026 a ultrapassar os 600 mil euros diários. É um mercado em explosão e, como todo o mercado em explosão, tem vencedores e excluídos muito bem definidos.

O problema não é o medicamento. É quem consegue pagá-lo. Estes fármacos custam, em média, entre 150 e 300 euros por mês, não são comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde, e continuam fora do alcance de grande parte de quem mais precisaria deles. Enquanto a obesidade continua a ser mais prevalente entre as classes com menores rendimentos, o tratamento mais eficaz de que a medicina alguma vez dispôs para a combater tornou-se, na prática, um produto de nicho.

Há aqui uma ironia incómoda: o Estado gasta anos a debater a comparticipação, enquanto o mercado já decidiu, sozinho, quem tem acesso à saúde metabólica do futuro. Quando a discussão finalmente avançar - e vai ter de avançar -, o desenho da equidade já estará moldado pelos primeiros anos de quem pôde pagar sem esperar.

Um recorde diário de vendas não é motivo de festa. É um indicador, tão preciso como qualquer outro, de que o nosso sistema de saúde está a ser ultrapassado pela própria inovação que devia estar a gerir.

Sociedade · Prisões sob escrutínio europeu

As prisões que a Europa já condenou e Portugal ainda não corrigiu

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos já condenou Portugal várias vezes pelas condições nas suas prisões. As indemnizações ultrapassam o milhão e meio de euros - mas é a reincidência do problema, não o seu custo, que devia alarmar-nos.

as celas, os relatórios

Há relatórios que se acumulam há tanto tempo que se tornou quase rotina lê-los sem espanto. As prisões de Lisboa, Monsanto e Porto continuam a acumular "fatores de risco particularmente elevados" para maus-tratos a reclusos, segundo o Mecanismo Nacional de Prevenção, enquanto o Estado português já pagou mais de um milhão e meio de euros em indemnizações no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em menos de seis anos. A pergunta que devíamos fazer já não é quanto isto custa - é porque continuamos a deixar que aconteça.

A sobrelotação é o problema estrutural mais citado, e também o mais fácil de ignorar, porque não tem uma cara visível nem um momento de indignação coletiva. Não há um vídeo viral de uma cela sem separação entre a zona sanitária e a zona de dormir; há apenas um relatório atrás de outro, ano após ano, a dizer praticamente a mesma coisa com números ligeiramente diferentes.

Também aqui é fácil apontar o dedo à falta de dinheiro. Mas o dinheiro já está a sair - em indemnizações, em comissões europeias que pedem explicações que Portugal tarda em dar de forma satisfatória. A verdadeira escolha não é entre gastar ou não gastar; é entre gastar de forma reativa, a pagar por violações já cometidas, ou gastar de forma preventiva, a corrigir o problema antes de ele gerar mais uma condenação.

Um sistema prisional não é uma questão que desapareça por falta de atenção mediática. Continuará a acumular condenações, uma por uma, até que decidamos tratá-lo como aquilo que realmente é: não um problema de segurança, mas um problema de direitos humanos que Portugal já reconheceu, por escrito, ter.

Ciência · 30 mil razões para otimismo

Os mosquitos estéreis que nos ensinam a resolver problemas antes de eles explodirem

Enquanto discutimos há anos os mesmos problemas sem resolver, uma equipa de saúde pública decidiu simplesmente agir: libertar 30 mil mosquitos machos e estéreis em Alvalade. É um gesto pequeno - e é exatamente por isso que interessa.

os machos que não picam

Não é todos os dias que uma notícia sobre insetos dá uma lição de gestão pública. Mas a libertação, esta quinta-feira, de 30 mil mosquitos machos estéreis da espécie Aedes albopictus em Alvalade - elevando para 60 mil o total de exemplares utilizados nesta primeira fase - é exatamente isso: um exemplo raro de uma instituição a antecipar um problema em vez de o gerir depois de ele explodir.

A lógica é simples e quase elegante: machos estéreis não picam, porque só as fêmeas precisam de sangue, mas acasalam na mesma, produzindo ovos que nunca chegarão a eclodir. É biologia a fazer o trabalho que, de outra forma, exigiria pesticidas, campanhas de sensibilização e, provavelmente, um surto antes de alguém decidir agir.

O contraste com os outros dois temas desta edição é evidente. Aqui não há um relatório de anos a acumular pó, nem um mercado a decidir sozinho quem tem acesso a quê. Há um projeto-piloto, com objetivos claros e mensuráveis, testado antes de ser generalizado - o oposto exato da lógica reativa que domina tantas outras áreas da administração pública portuguesa.

Trinta mil mosquitos não vão resolver os problemas estruturais do país. Mas talvez sirvam de lembrete simples: quando queremos, sabemos antecipar problemas em vez de os gerir tarde e a más horas. A questão é porque escolhemos fazê-lo tão raramente.