Pedro Passos Coelho, em entrevista à SIC Notícias conduzida por Maria João Avillez, admitiu ponderar um regresso à vida política ativa apenas se o PSD não tiver sucesso na governação: nesse caso, disse, "ponderarei e tomarei a iniciativa, se for caso disso". Acrescentou que, nesta altura, "não está candidato a nada". Houve mais do que a porta aberta. Passos defendeu que, no início da legislatura, o PSD "tinha a obrigação" de tentar um acordo de legislatura com o Chega e a IL, partidos que, com o PSD, somaram mais de 60% dos votos nas últimas eleições, e classificou como "armadilha política imensa" os acordos pontuais, que, na sua leitura, impedem reformas mais profundas.
Convém reconhecer a coerência do argumento. Um governo minoritário que negocia caso a caso fica refém de cada votação e das conveniências de quem lhe dá a mão, e Passos, que governou com maioria, sabe o que custa não a ter. A sua tese é a de que, sem um suporte estável, as reformas importantes não saem do papel e "todos eles serão penalizados". Também teve um elogio medido a André Ventura, de "bastante mérito" e "iniciativa notável", acompanhado de uma crítica à proposta de baixar a idade da reforma.
Mas o conselho pesa mais pelo que implica do que pelo que diz. Quando um antigo líder, com o peso que a sua voz ainda tem no partido, só se afasta da possibilidade de regressar se o partido falhar, transforma cada dificuldade do atual Governo numa pequena vantagem para si. Não nomeou Montenegro, e as declarações que li não o fazem, mas não era preciso: qualquer um percebe a quem se dirige. A porta aberta é uma forma de dizer que há alternativa.
O debate de fundo merece mais do que uma entrevista. Um acordo de legislatura com o Chega tem um preço político e programático que o PSD escolheu não pagar, e a abstenção que o PS propõe no Orçamento mostra que existe outra via. Qual das duas dá mais estabilidade? Cabe ao PSD e ao Governo responder em voz alta, em vez de deixar a resposta a quem já passou por lá. Quem governa não deve precisar de que lhe digam o que fazer pela televisão.