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A TRIBUNA DIÁRIA

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Edição N.º 19 Segunda-feira, 12 outubro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Política · A porta entreaberta

Passos Coelho deixa a porta aberta - e o recado para o PSD fica por dizer em voz alta

Em entrevista à SIC Notícias, o antigo primeiro-ministro só admite voltar à política se o PSD "não for bem-sucedido", e diz que o partido tinha a obrigação de procurar um acordo de legislatura com o Chega e a IL. Um conselho que também é uma pressão.

a porta entreaberta

Pedro Passos Coelho, em entrevista à SIC Notícias conduzida por Maria João Avillez, admitiu ponderar um regresso à vida política ativa apenas se o PSD não tiver sucesso na governação: nesse caso, disse, "ponderarei e tomarei a iniciativa, se for caso disso". Acrescentou que, nesta altura, "não está candidato a nada". Houve mais do que a porta aberta. Passos defendeu que, no início da legislatura, o PSD "tinha a obrigação" de tentar um acordo de legislatura com o Chega e a IL, partidos que, com o PSD, somaram mais de 60% dos votos nas últimas eleições, e classificou como "armadilha política imensa" os acordos pontuais, que, na sua leitura, impedem reformas mais profundas.

Convém reconhecer a coerência do argumento. Um governo minoritário que negocia caso a caso fica refém de cada votação e das conveniências de quem lhe dá a mão, e Passos, que governou com maioria, sabe o que custa não a ter. A sua tese é a de que, sem um suporte estável, as reformas importantes não saem do papel e "todos eles serão penalizados". Também teve um elogio medido a André Ventura, de "bastante mérito" e "iniciativa notável", acompanhado de uma crítica à proposta de baixar a idade da reforma.

Mas o conselho pesa mais pelo que implica do que pelo que diz. Quando um antigo líder, com o peso que a sua voz ainda tem no partido, só se afasta da possibilidade de regressar se o partido falhar, transforma cada dificuldade do atual Governo numa pequena vantagem para si. Não nomeou Montenegro, e as declarações que li não o fazem, mas não era preciso: qualquer um percebe a quem se dirige. A porta aberta é uma forma de dizer que há alternativa.

O debate de fundo merece mais do que uma entrevista. Um acordo de legislatura com o Chega tem um preço político e programático que o PSD escolheu não pagar, e a abstenção que o PS propõe no Orçamento mostra que existe outra via. Qual das duas dá mais estabilidade? Cabe ao PSD e ao Governo responder em voz alta, em vez de deixar a resposta a quem já passou por lá. Quem governa não deve precisar de que lhe digam o que fazer pela televisão.

Trabalho · Uma central em continuidade

Uma nova presidente na UGT e o mesmo acordo de sempre: a renovação que espera por uma candidatura

Rosa Sousa foi eleita presidente da UGT e Mário Mourão reeleito secretário-geral. A central perde filiados, a escolha passou por um impasse entre os sociais-democratas, e nunca houve uma lista alternativa com apoio relevante. Para um sindicato, estabilidade a mais pode ser um problema.

a cadeira e o testemunho

No 15.º Congresso, na Figueira da Foz, Rosa Sousa foi eleita presidente da UGT com 413 votos a favor, 78 contra, 17 brancos e 4 nulos, e sucede à social-democrata Lucinda Dâmaso, que liderava a central desde abril de 2013. Mário Mourão, socialista, foi reeleito secretário-geral para um segundo mandato, com 449 votos a favor e 46 contra. Rosa Sousa, que preside ao STE desde dezembro de 2025, foi a escolha dos Trabalhadores Social-Democratas depois de a proposta inicial, o deputado do PSD Francisco Pimentel, não ter reunido consenso no secretariado nacional. O mesmo congresso ficou marcado por números menos festivos: a UGT tem 430 mil filiados, menos 5.000 do que em 2022.

A eleição foi tranquila, e nenhum dos resultados surpreende. Existe, segundo o Observador, um acordo implícito pelo qual os sociais-democratas indicam o presidente e os socialistas o secretário-geral, e nunca houve na história da UGT uma candidatura alternativa com o apoio mínimo de 20% dos delegados. Por um lado, isto traduz estabilidade: a central consegue falar a uma só voz com o Governo e com os patrões, o que tem valor na concertação social.

Por outro, o equilíbrio entre duas tendências parece-se, vista de fora, com uma partilha de lugares. Uma estrutura que perde filiados, que escolhe a presidente depois de uma reunião de emergência e que não dá espaço a listas alternativas arrisca-se a parecer mais preocupada com a gestão interna do que com quem representa. Os trabalhadores que não se sentem representados não fazem greve: deixam de pagar a quota.

O desafio para a nova direção é, por isso, duplo. Primeiro, mostrar que a UGT tem posição própria sobre salários, habitação e custo de vida, como Mário Mourão já desafiou o primeiro-ministro a rever o acordo de salários. Segundo, abrir a competição interna, para que a próxima eleição seja uma escolha e não uma confirmação. Um sindicato que não se renova por dentro dificilmente consegue exigir renovação lá fora.

Sociedade · Barracas e prazos

Demolir primeiro, realojar depois: em Vila Franca de Xira, a ordem das palavras é a política

A Câmara de Vila Franca de Xira quer demolir as construções ilegais do Sobralinho, e a oposição reclama realojamento antes de qualquer demolição. Moradores dizem que a autarquia só quer "dar boa imagem". Quem não tem casa não tem prazos para esperar.

a barraca e a chave

A Câmara de Vila Franca de Xira, liderada pelo socialista Fernando Paulo Ferreira, quer demolir as construções ilegais nos bairros de Clarimundo e Tardoz da Improsit, na freguesia de Sobralinho. Uma operação da PSP em julho identificou 11 construções devolutas, para demolir, e 11 habitações precárias ocupadas por 37 pessoas. A autarquia diz que todas as construções precárias e ilegais, ocupadas ou não, serão demolidas "em momento devido" e que as famílias com direito a realojamento estão identificadas e acompanhadas ao abrigo do programa 1.º Direito. A coligação da oposição (PSD e IL) diz que as respostas têm sido mínimas e que demolir sem realojar deixa famílias na rua. Moradores, que dizem viver sem água, luz ou saneamento, acusam a câmara de atrasar o realojamento para "dar uma boa imagem".

Há dois princípios em jogo, e nenhum deve ser ignorado. O primeiro é o da legalidade: um município não pode tolerar indefinidamente construções sem licença, e deixar crescer um bairro de barracas é uma forma de abandono. O presidente tem razão em não querer mais barracas, e em dizer que não deseja ver novas construções.

O segundo é o da dignidade. Demolir uma barraca onde alguém vive sem ter pronta uma alternativa não resolve um problema: muda-o de sítio, e quem fica sem teto tende a procurar outro terreno. A câmara não respondeu às perguntas sobre o plano e o calendário de realojamento previsto na Estratégia Local de Habitação de 2021, e é aí que a confiança se perde. Quando se fala em "momento devido" sem um prazo, quem espera é quem vive na barraca.

Há ainda uma dúvida de dinheiro: o fim dos fundos do PRR levanta a pergunta sobre quem vai pagar as casas prometidas, e o município diz haver outros instrumentos de financiamento. Pois que os mostre. Uma política de habitação mede-se na ordem das ações: primeiro a casa, depois a demolição, e um calendário afixado para que quem hoje vive sem luz saiba quando deixará de viver assim. A ordem das palavras, aqui, é a política.