O Ministério da Administração Interna anunciou ontem, num comunicado assinado pelo ministro Luís Neves e pelos três secretários de Estado, a exoneração do secretário-geral, Ricardo Carrilho, por "quebra de confiança". O ministério acusa-o de tentar prejudicar o SIRESP, "o único sistema de comunicações de emergência do Estado", e aponta quatro episódios: a extinção do Centro de Operações e Gestão do SIRESP em plena época de incêndios, sem consulta à tutela, o que obrigou a recorrer à GNR e à PSP; a recusa de pagar uma indemnização compensatória de 26 milhões de euros à SIRESP, S.A.; o atraso na entrega de geradores e rádios às juntas de freguesia; e a falta de comunicação de um relatório da IGF sobre despesas em projetos com fundos europeus, que levou à devolução de 4,5 milhões à Comissão. Carrilho responde que se trata de uma "purga política", que o pagamento dos 26 milhões seria ilegal e que alertou Luís Neves várias vezes.
É uma daquelas disputas em que cada lado tem uma versão coerente e em que o cidadão não tem como saber, só com o que lê, quem tem razão. O ministério diz que o ex-secretário-geral levantou agora dúvidas que "nunca invocou no passado". Carrilho diz que avisou. Ambas as frases podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, porque avisar de uma ilegalidade e fazê-lo em conflito aberto com o ministro não é a mesma coisa que preparar uma falha de serviço.
O que torna o caso grave não é a pessoa, é o objeto. O SIRESP é a rede de que dependem bombeiros, polícias e emergência médica, e uma disputa sobre a extinção de um centro de operações e sobre uma indemnização de 26 milhões não é um tema de gestão menor. Pelo contrário: se o ministro tem razão, houve um risco real durante os incêndios; se tem razão o ex-secretário-geral, está em causa um pagamento ilegítimo de dinheiro público e uma demissão que seria retaliação. E, tratando-se do ministro cujos mandatos na PJ são alvo de um inquérito parlamentar, as duas versões ganham uma carga política difícil de ignorar.
A única maneira de sair do impasse é substituir versões por documentos. Que se divulguem o relatório da IGF, os pareceres jurídicos sobre os 26 milhões e as decisões sobre o centro de operações, e que as auditorias em curso, incluindo a que a IGAI faz aos contratos do SIRESP, tenham prazo e resultados públicos. Um sistema de emergência não pode viver de confiança entre pessoas: tem de viver de regras que se possam verificar.