O INE confirmou ontem que a inflação em Portugal subiu para 3,6% em setembro, mais 0,3 pontos percentuais do que em agosto e o valor mais alto desde agosto de 2023. É o segundo mês consecutivo de aceleração, depois de a taxa ter abrandado entre abril e julho. A energia subiu 15,3% em termos homólogos, contra 12,2% no mês anterior, e o INE é claro: "A aceleração do IPC é explicada em grande medida pelo aumento do preço dos combustíveis", que atingiram valores recorde, com o gasóleo e a gasolina acima dos dois euros por litro. Os alimentos não transformados também aceleraram, para 3,7%. No mesmo dia, as taxas Euribor a três, seis e 12 meses voltaram a subir.
Os números contam duas histórias. Uma é de origem externa, e já sabemos o nome: a guerra no Irão e as restrições no estreito de Ormuz que mexem com o petróleo, o gás e, por arrasto, com a eletricidade. Nenhum governo controla isso. A outra é de efeito interno: a energia entra em quase tudo o que se compra, e quando o gasóleo sobe, sobem os transportes, os alimentos e, mais tarde, os salários que os trabalhadores exigem para os acompanhar.
É aqui que a subida da Euribor muda a conta de muitas famílias. Quem tem crédito à habitação com taxa variável sente a inflação duas vezes: no supermercado e na prestação. O que o Governo anunciou até agora, uma descida do IRS de cerca de 400 milhões e a prorrogação do mecanismo que devolve em ISP o IVA a mais cobrado nos combustíveis, é útil, mas parte de uma lógica geral que não distingue quem sente mais.
Se a pressão continuar, o debate deixará de ser sobre alívios gerais e passará a ser sobre alívios dirigidos: quem precisa de apoio para os combustíveis porque depende do carro, quem vê a prestação disparar, quem vive com pensões que a inflação corrói. Isso exige que o Governo diga qual é o plano para o inverno, com custos e critérios, e não só que a inflação é "externa". Ter razão sobre a origem de um problema não paga a conta de ninguém.