O Conselho de Ministros escolheu ontem a Lufthansa como compradora de uma participação na TAP, com uma proposta de 1.201 milhões de euros, e a Air France-KLM ficou de fora. As duas propostas finais incidiam sobre 44,9% do capital, a que se somam até 5% reservados aos trabalhadores, e o Estado mantém a maioria. Segundo o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, a privatização só afeta a dívida, não o saldo orçamental, e o efeito só se sentirá em 2028, já que a operação tem de ser autorizada por Bruxelas, num processo que pode demorar entre 18 e 24 meses. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, resumiu: "Estamos a garantir o crescimento da TAP."
Há razões para reconhecer o resultado. O processo teve concorrência a sério, com duas propostas finais melhoradas depois de as primeiras estarem muito próximas, e o Estado fica com mais de mil milhões de euros em perspetiva sem perder a maioria. A TAP foi parcialmente privatizada em 2015 e o processo foi revertido em 2016, e essas voltas mostram quanto o seu futuro depende da estabilidade que se lhe dê.
Mas o número da proposta é só uma parte da conta. A Lufthansa, segundo o que foi reportado sobre a sua oferta, quer crescer no Brasil, expandir o hub de Lisboa e reforçar o Porto, e admite uma posição minoritária mas com influência na gestão executiva. É nesta última parte que reside a questão: quando uma maioria pública e uma gestão alemã coexistem, quem decide as rotas, a frota e os investimentos? E o que acontece ao hub de Lisboa se os interesses de um grande grupo europeu apontarem para Frankfurt e Munique?
A resposta tem de estar escrita antes de 2028: compromissos contratuais sobre rotas, emprego e manutenção, mecanismos de salvaguarda para o Estado, e transparência sobre o que a Lufthansa assumiu, pelo menos no essencial. A privatização é um bom negócio se o preço pago se juntar a condições que o país possa verificar. Sem elas, o que Portugal vende não é uma fatia de uma companhia, é uma parte do controlo de uma ligação ao mundo.