Durante a madrugada de ontem, a PSP desmantelou o acampamento do Movimento pela Habitação na Praça D. João I, no Porto, onde dezenas de pessoas estavam desde sábado. Segundo o movimento, houve 37 feridos, dois deles graves, e o seu porta-voz fala em "brutalidade"; a PSP confirma que um agente foi ferido e que houve manifestantes feridos, sem dar um número, e justifica a ação com "comportamentos de resistência" depois de pedidos reiterados para retirar as tendas e baixar o ruído. Lembra que as concentrações não podem prolongar-se para além das 00h30 e que vai enviar ao Ministério Público um auto com as gravações. O presidente da câmara, Pedro Duarte, disse que a praça "não é um parque de campismo" e que será "absolutamente implacável" com qualquer tentativa de montar tendas. A Amnistia Internacional pede uma investigação "independente, imparcial e eficaz" e avisou para um possível "uso de força excessiva".
O primeiro-ministro, em Bruxelas, elogiou uma polícia "extraordinariamente criteriosa e respeitadora", defendeu que o direito de manifestação não pode colidir com outros direitos e rejeitou comparações com Espanha e França. Pediu ainda que os manifestantes não fossem "egoístas".
Há aqui duas verdades que convém manter juntas. A primeira é que o espaço público tem regras, que a câmara pode e deve fazê-las cumprir, e que uma praça ocupada à noite com tendas e ruído é um problema legítimo para quem lá vive. A segunda é que a ocupação durava há dias, a manifestação estava, segundo o movimento, autorizada até dia 20, e uma intervenção às três da manhã, com dezenas de feridos relatados e pelo menos oito pessoas assistidas pelos bombeiros, exige proporcionalidade que tem de ser demonstrada, não presumida.
Quando versões se contradizem, resolvem-se com factos. A PSP diz que tem vídeos: que os mostre, e que mostre também o que os precedeu. O Ministério Público deve ouvir feridos e agentes, e uma entidade independente deve avaliar a atuação, como a Amnistia sugere. Chamar "egoístas" a quem protesta contra rendas altas não responde a nada. Num país em que, cinco dias antes, milhares saíram à rua pelo mesmo motivo, a pergunta que o Governo deve ouvir não é se a polícia agiu com critério, mas porque é que a habitação continua a pôr as pessoas numa praça.