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A TRIBUNA DIÁRIA

"Três temas na balança. Onde o consenso ganha forma."
Edição N.º 23 Sexta-feira, 16 outubro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Sociedade · A noite da Praça D. João I

Uma carga policial às três da manhã não se resolve com adjetivos: precisa de imagens, de números e de um inquérito

O Movimento pela Habitação diz que 37 pessoas ficaram feridas na intervenção da PSP que desmantelou o acampamento no Porto. A PSP fala em "comportamentos de resistência". O Governo confia na polícia, a Amnistia pede uma investigação independente.

a tenda e a hora

Durante a madrugada de ontem, a PSP desmantelou o acampamento do Movimento pela Habitação na Praça D. João I, no Porto, onde dezenas de pessoas estavam desde sábado. Segundo o movimento, houve 37 feridos, dois deles graves, e o seu porta-voz fala em "brutalidade"; a PSP confirma que um agente foi ferido e que houve manifestantes feridos, sem dar um número, e justifica a ação com "comportamentos de resistência" depois de pedidos reiterados para retirar as tendas e baixar o ruído. Lembra que as concentrações não podem prolongar-se para além das 00h30 e que vai enviar ao Ministério Público um auto com as gravações. O presidente da câmara, Pedro Duarte, disse que a praça "não é um parque de campismo" e que será "absolutamente implacável" com qualquer tentativa de montar tendas. A Amnistia Internacional pede uma investigação "independente, imparcial e eficaz" e avisou para um possível "uso de força excessiva".

O primeiro-ministro, em Bruxelas, elogiou uma polícia "extraordinariamente criteriosa e respeitadora", defendeu que o direito de manifestação não pode colidir com outros direitos e rejeitou comparações com Espanha e França. Pediu ainda que os manifestantes não fossem "egoístas".

Há aqui duas verdades que convém manter juntas. A primeira é que o espaço público tem regras, que a câmara pode e deve fazê-las cumprir, e que uma praça ocupada à noite com tendas e ruído é um problema legítimo para quem lá vive. A segunda é que a ocupação durava há dias, a manifestação estava, segundo o movimento, autorizada até dia 20, e uma intervenção às três da manhã, com dezenas de feridos relatados e pelo menos oito pessoas assistidas pelos bombeiros, exige proporcionalidade que tem de ser demonstrada, não presumida.

Quando versões se contradizem, resolvem-se com factos. A PSP diz que tem vídeos: que os mostre, e que mostre também o que os precedeu. O Ministério Público deve ouvir feridos e agentes, e uma entidade independente deve avaliar a atuação, como a Amnistia sugere. Chamar "egoístas" a quem protesta contra rendas altas não responde a nada. Num país em que, cinco dias antes, milhares saíram à rua pelo mesmo motivo, a pergunta que o Governo deve ouvir não é se a polícia agiu com critério, mas porque é que a habitação continua a pôr as pessoas numa praça.

Economia · O contrato por detrás da TAP

A Lufthansa quer 75% dos ganhos com 44,9% do capital - e depois quer o resto

O grupo alemão estima 450 milhões de euros de sinergias com a TAP, pretende receber até 75% dos ganhos através de dividendos enquanto for minoritário, e já diz que quer chegar à totalidade da companhia. O Estado fica com a maioria, mas fica com que parte do valor?

a fatia e os ganhos

Um dia depois de o Governo anunciar a Lufthansa como compradora, o grupo alemão explicou os números. Estima 450 milhões de euros de sinergias anuais com a participação de 44,9% na TAP, a maior parte geradas na própria TAP, através da rede de rotas, do programa de fidelidade, das compras, da manutenção e da carga, e vê mais 100 milhões se vier a controlar a totalidade. Negociou um mecanismo de dividendos que lhe permite receber até 75% dos ganhos enquanto for minoritário, que o diretor financeiro, Till Streichert, descreve como uma "distribuição justa". A entrada no capital está prevista para 2028, o investimento inicial pode chegar a 1,2 mil milhões de euros e o CEO, Carsten Spohr, diz que a operação é "fácil de aprovar" do ponto de vista da concorrência. Fala-se, ainda, em chegar à totalidade da companhia.

A aritmética é simples e merece ser dita em voz alta: com 44,9% do capital, a Lufthansa poderá receber até 75% dos ganhos que a sua entrada gerar. O Estado, que fica com a maioria, ficaria com o resto. Pode haver boas razões para isso: a Lufthansa traz a rede, os sistemas e o conhecimento que criam esses ganhos, e é normal que queira ser paga por eles. Só que cabe ao vendedor saber se está a vender uma companhia ou a ceder o lucro de uma estratégia que acaba por ser comum.

E há a segunda leitura. Se o objetivo declarado é chegar aos 100%, a maioria pública é uma fase, não um destino. Quem ouve "o Estado mantém a maioria" fica com a ideia de que a TAP continuará controlada a partir de Lisboa, e o grupo que a compra afirma que não é bem assim. Não há nada de ilegítimo em dizer que se quer mais; o que não pode haver é um debate público assente em garantias que o comprador já anunciou que quer superar.

A exigência, por isso, é de transparência: que os termos do mecanismo de dividendos e as opções sobre o capital restante sejam conhecidos antes de o processo ir a Bruxelas, e que o Parlamento possa discuti-los. A TAP é, quer se queira quer não, um ativo estratégico, e vender uma parte dela é uma decisão que se mede no país que fica, não apenas no preço que se recebe. A TAP não pode ser um negócio em que só se conhece o cheque.

Saúde · Os números que assustam

Uma suspeita de reação adversa por dia soa a alarme - mas os números só valem com denominador

O Infarmed recebeu 266 notificações de suspeitas de reações adversas a medicamentos para a diabetes e para emagrecer em 2026. É um número pequeno ao lado das caixas vendidas e mostra um sistema de vigilância a funcionar - desde que ninguém o leia ao contrário.

a caneta e a contagem

Segundo dados do Infarmed, o sistema nacional de farmacovigilância recebeu 266 notificações de suspeitas de reações adversas a medicamentos GLP-1 para a diabetes e para emagrecer entre 1 de janeiro e 21 de setembro de 2026, cerca de uma por dia. Desde 2024 foram 695, repartidas por quatro substâncias, com a tirzepatida (Mounjaro), comercializada desde novembro de 2024, a concentrar a maior parte. As reações mais notificadas foram náuseas (98), vómitos (68), diarreia (61), obstipação (41) e reações no local da injeção (29). Houve 19 casos com termos ligados a pancreatite, e uma parte das notificações foi classificada como grave, como 26 das 68 de vómitos e 15 das 61 de diarreia.

Lido sem contexto, o número assusta. Mas o Infarmed fornece o contexto, e é ele que conta: as embalagens de tirzepatida dispensadas nas farmácias do continente passaram de cerca de 10.700, em 2024, para mais de 434 mil em 2025 e quase 395 mil só no primeiro semestre de 2026. Em notificações por mil embalagens, a taxa da tirzepatida foi de 0,68 em 2025 e de 0,32 no primeiro semestre de 2026, ou seja, desceu. O Infarmed recorda ainda que as notificações espontâneas, por si só, não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito, e que um caso pode incluir várias reações.

Convém, no entanto, não desvalorizar. As notificações espontâneas são, por natureza, uma fração do que acontece, e o aumento acentuado do consumo obriga a uma vigilância contínua. Há casos graves, e quem os viveu merece ser levado a sério. O que não faz sentido é concluir que estes medicamentos são perigosos por haver uma notificação por dia, nem que são inofensivos por a taxa estar a descer.

A mensagem útil é prática. Quem toma ou pensa tomar estes fármacos deve fazê-lo com acompanhamento médico, e quem sentir uma reação deve notificá-la, ao médico ou ao Infarmed, porque é assim que o sistema aprende. Às autoridades pede-se que continuem a publicar dados com denominadores, para que o debate seja sobre risco e benefício, e não sobre um número solto que serve tanto para alarmar como para sossegar.