José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, disse ontem em Vila Nova de Cerveira que a lei das rendas, que atribui à AD, ao Chega e à Iniciativa Liberal, se tornou num "rastilho social". Pediu ao primeiro-ministro que a arquive e crie outra para proteger jovens, famílias e idosos, e afirmou que a lei desprotege os mais jovens e as famílias e lança os mais idosos na incerteza. Mas excluiu que o PS mude o sentido de voto, a abstenção, no Orçamento do Estado se o Governo não recuar: criar uma crise política agora seria "de uma grande irresponsabilidade", e essa responsabilidade, disse, caberia ao Governo.
A lei em causa foi aprovada na generalidade a 30 de setembro, com a abstenção do Chega, e segue agora para a especialidade. Na versão que o Governo aprovou em julho, acaba o limite de 2% para o aumento das rendas em novos contratos, o senhorio pode exigir três rendas antecipadas e a caução deixa de ter limite, e o despejo por rendas em atraso pode avançar ao fim de dois meses, e não de três. Em contrapartida, prevê um Fundo de Emergência Habitacional e uma dedução maior das rendas no IRS. O PSD e o Chega assinaram um acordo para quatro alterações na especialidade: limitar adiantamentos e cauções, proteger inquilinos idosos com contratos antigos, reforçar a resposta social e distinguir o incumprimento abusivo da incapacidade real de pagar. Montenegro diz que "não é uma flexibilização" mas uma forma de dinamizar o mercado.
Há duas coisas verdadeiras no que Carneiro diz. Num país onde, no mesmo dia, milhares de pessoas saíram à rua por causa da habitação, o aviso de que esta lei pode agravar a tensão não é retórica gratuita. E tem razão em não querer uma crise política por causa dela: o Orçamento e a lei das rendas são decisões diferentes, e misturá-las serviria o Governo ou a oposição conforme a conveniência.
Só que um aviso sem consequência é uma opinião, e um pedido de arquivamento a quem conseguiu aprová-la com a abstenção do Chega também. O Governo já mostrou que a lei é negociável, e a negociação tem dois parceiros, o PSD e o Chega, e, pelo que li, o PS não é um deles. Se o PS acha que a lei é um rastilho, o sítio onde pode mexer no rastilho é a especialidade. Que diga quais são as três ou quatro alterações sem as quais não pode aceitá-la: o prazo dos despejos, o limite das cauções, a proteção dos idosos, a rede de apoio a quem fica sem casa. Uma gaveta não é uma alternativa; uma proposta escrita é.