Em entrevista à Lusa, a eurodeputada socialista Ana Catarina Mendes, ministra-adjunta e dos Assuntos Parlamentares do último governo socialista e principal promotora da criação da AIMA, lamentou o fim do que chama o projeto original da agência, travado pela queda do Governo a 7 de novembro de 2023. Diz que a parte administrativa avança "com dificuldades" e que a inclusão do Alto Comissariado para as Migrações na AIMA visava ir além dos documentos e acompanhar a integração dos imigrantes. Considera "um erro clamoroso" o regresso de uma unidade de estrangeiros e fronteiras à PSP, porque, segundo ela, volta a colocar a imigração sob a lógica policial e entrega à polícia a decisão e a execução do retorno. Recorda a morte do cidadão ucraniano Ihor Homenyuk, em 2020, às mãos de agentes do antigo SEF no aeroporto de Lisboa, espera que nada semelhante volte a acontecer e vê como "um perigo" a concentração de poderes.
Reconhece "alguma alegria" por o atual Governo ter cumprido o prazo de dezembro de 2025 para regularizar as pendências, mas lamenta a eliminação, em junho de 2024, da manifestação de interesse e a falta de seguimento a projetos que deixou, como o plano de português para estrangeiros. Segundo ela, o SEF deixou 350 mil manifestações de interesse pendentes, 175 mil autorizações de residência CPLP e 30 mil vistos gold. Cita ainda que, em 2024, mais de 1,03 milhões de estrangeiros contribuíram para a Segurança Social.
O aviso tem substância. O caso Homenyuk é a prova de que uma estrutura com poder sobre pessoas detidas e sem escrutínio suficiente pode matar, e a pergunta sobre quem decide e executa o retorno de um estrangeiro é legítima em qualquer Estado de direito. Tratar imigração só como matéria de segurança também tem custos, e os números que ela cita sobre contribuições dizem que há muito mais em jogo do que fronteiras.
Mas quem avisa também tem uma herança. A agência que promoveu herdou centenas de milhares de processos e, quando o Governo mudou, ainda os tinha por resolver, segundo os números que ela própria cita. As razões que apresenta, pandemia, resistência à reestruturação e sistemas obsoletos, podem ser verdadeiras sem apagarem o facto de o atraso ter sido enorme e de a reforma não o ter evitado. Não li, nas notícias de ontem, a resposta do Governo sobre este ponto. Pede-se-lhe que a dê, e que diga que garantias existem para quem é detido ou removido: filmagens, inspeção independente, relatórios públicos, acesso a advogado. O melhor argumento contra o receio de abusos não é a boa-fé de quem manda, é um sistema onde alguém de fora pode verificar.