O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, apresentou ontem um pacote de medidas para a habitação. A mais visível é a isenção de mais-valias na venda de casas já existentes até 300 mil euros, desde que sejam para habitação própria, com tributação reduzida, sem valores definidos, entre 300 e 500 mil euros, num regime excecional de três anos. Junta-lhe a isenção de imposto do selo nessas compras e no respetivo crédito à habitação, um contrato de arrendamento de cinco anos, por opção das partes, com rendas tributadas a 5% e garantia pública para o senhorio em caso de falta de pagamento, a reativação do Balcão do Arrendatário e do Senhorio e um Serviço Nacional de Habitação Acessível, programa para a próxima década que reuniria os instrumentos existentes e mobilizaria autarquias, cooperativas, associações e privados. Carneiro diz que "tem faltado ao Governo vontade política para avançar e capacidade para desenhar e executar boas políticas", lembra que a carta com sete propostas enviada em agosto de 2025 ficou sem resposta e promete apresentar o conjunto final depois de uma auscultação nacional em cinco eixos.
A notícia que li não traz estimativa de custo nem reação do Governo.
Convém registar o que há de bom. No sábado, o líder do PS pedia que a lei das rendas fosse para a gaveta, e ontem apresentou o que queria pôr no lugar. Um partido que se opõe a uma lei e entrega alternativa escrita está a fazer o que se espera de uma oposição. Algumas peças parecem pensadas para o problema real: um contrato de cinco anos com garantia ao senhorio pode dar segurança a quem arrenda, e um serviço de habitação acessível para uma década é um horizonte que falta ao debate.
Mas o pacote tem partes que merecem pergunta. Isentar mais-valias e selo na compra de casas de até 300 mil euros reduz o custo de vender e comprar, e o risco habitual de medidas assim, num mercado com pouca oferta, é que parte do benefício se transfira para os preços. A garantia pública ao senhorio tem um custo para o Estado que ninguém quantificou, e a isenção de mais-valias favorece quem já tem casa, não quem procura uma. Nada disto torna as medidas más, mas obriga a dizer quanto custam, quem beneficia e que parte da oferta nova acrescentam.
O que se pede ao PS é o mesmo que se pediu ao Governo: números. Que o pacote final traga o custo de cada medida, a estimativa de quem seria abrangido e a ligação ao que pode fazer já, na especialidade da lei do arrendamento. Uma alternativa só é uma alternativa quando se pode pôr ao lado da conta do Governo.