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A TRIBUNA DIÁRIA

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Edição N.º 27 Terça-feira, 20 outubro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Política · O pacote do PS

Do rastilho à proposta: o PS propõe isentar de mais-valias as casas até 300 mil euros, e agora precisa de mostrar a conta e a quem serve

Carneiro apresentou um pacote para a habitação com isenção de mais-valias na venda de casas até 300 mil euros, garantia pública para o senhorio e um programa para a próxima década. Há ideias úteis. Falta o custo e a prova de que ajudam quem não tem casa.

a casa e o limite

O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, apresentou ontem um pacote de medidas para a habitação. A mais visível é a isenção de mais-valias na venda de casas já existentes até 300 mil euros, desde que sejam para habitação própria, com tributação reduzida, sem valores definidos, entre 300 e 500 mil euros, num regime excecional de três anos. Junta-lhe a isenção de imposto do selo nessas compras e no respetivo crédito à habitação, um contrato de arrendamento de cinco anos, por opção das partes, com rendas tributadas a 5% e garantia pública para o senhorio em caso de falta de pagamento, a reativação do Balcão do Arrendatário e do Senhorio e um Serviço Nacional de Habitação Acessível, programa para a próxima década que reuniria os instrumentos existentes e mobilizaria autarquias, cooperativas, associações e privados. Carneiro diz que "tem faltado ao Governo vontade política para avançar e capacidade para desenhar e executar boas políticas", lembra que a carta com sete propostas enviada em agosto de 2025 ficou sem resposta e promete apresentar o conjunto final depois de uma auscultação nacional em cinco eixos.

A notícia que li não traz estimativa de custo nem reação do Governo.

Convém registar o que há de bom. No sábado, o líder do PS pedia que a lei das rendas fosse para a gaveta, e ontem apresentou o que queria pôr no lugar. Um partido que se opõe a uma lei e entrega alternativa escrita está a fazer o que se espera de uma oposição. Algumas peças parecem pensadas para o problema real: um contrato de cinco anos com garantia ao senhorio pode dar segurança a quem arrenda, e um serviço de habitação acessível para uma década é um horizonte que falta ao debate.

Mas o pacote tem partes que merecem pergunta. Isentar mais-valias e selo na compra de casas de até 300 mil euros reduz o custo de vender e comprar, e o risco habitual de medidas assim, num mercado com pouca oferta, é que parte do benefício se transfira para os preços. A garantia pública ao senhorio tem um custo para o Estado que ninguém quantificou, e a isenção de mais-valias favorece quem já tem casa, não quem procura uma. Nada disto torna as medidas más, mas obriga a dizer quanto custam, quem beneficia e que parte da oferta nova acrescentam.

O que se pede ao PS é o mesmo que se pediu ao Governo: números. Que o pacote final traga o custo de cada medida, a estimativa de quem seria abrangido e a ligação ao que pode fazer já, na especialidade da lei do arrendamento. Uma alternativa só é uma alternativa quando se pode pôr ao lado da conta do Governo.

Educação · A escola de portas fechadas

Sem carreira, sem progressão: a greve que fecha escolas diz o que a escola raramente conta sobre quem a faz funcionar

Uma greve de 24 horas dos trabalhadores não docentes fechou ontem escolas em vários distritos. As famílias pagam o transtorno. A reivindicação, carreiras próprias, é antiga e pede resposta que não seja só o calendário.

a escola de portas fechadas

Uma greve de 24 horas convocada pelo Sindicato Nacional dos Profissionais da Educação fechou ontem escolas em vários distritos, de Lisboa e Setúbal a Coimbra, Viseu, Aveiro e Faro. O sindicato previa cerca de 70% de adesão, uma estimativa sua e não um número apurado, e o dirigente Francisco Pinto falou em "muitas escolas fechadas por todo o país" e num panorama "idêntico por todo o país". Na escola de Benfica, a diretora do agrupamento disse que as aulas estavam suspensas de manhã e que a situação seria reavaliada à hora da mudança de turno dos funcionários. A reivindicação é a existência de carreiras próprias para técnicos superiores, assistentes técnicos e assistentes operacionais, que o comunicado diz estarem "sem carreira, sem progressão e sem reconhecimento funcional na administração pública", em regime de precariedade consecutiva. A notícia que li não inclui resposta do Ministério da Educação nem novas datas de luta.

No mesmo dia, o Governo recebeu os sindicatos da função pública para iniciar a negociação dos salários de 2027, e a Fesap exigia respostas sobre os aumentos de novembro e admitia protestos.

Há um custo imediato que não deve ser menosprezado. Uma escola fechada é um dia sem aulas para os alunos e, para muitas famílias, um problema de horários e de quem fica com as crianças. Quem convoca uma greve sabe que é isto que lhe dá força, e quem a sofre tem o direito de o dizer.

Mas a greve fala de uma coisa que a escola raramente conta: o funcionamento de um edifício com centenas de alunos depende de assistentes que vigiam, limpam, acompanham, servem refeições e abrem e fecham portas, e sem eles a escola não abre. Pedir carreira e progressão a quem faz este trabalho é pedir que a função tenha um caminho e não apenas um posto. Que o sindicato tenha a adesão que diz ter é matéria a verificar, mas o problema que denuncia é conhecido há muito.

A resposta que se espera do Ministério não é uma frase sobre o direito à greve. É um calendário: quando se negoceia a carreira dos não docentes, com que mesa, com que prazo, e como isso se articula com as negociações salariais de 2027 que arrancaram ontem. Uma escola fechada um dia é um transtorno que passa. Uma escola que não sabe quem lhe garante o funcionamento acumula um problema que não passa.

Saúde · O apagão do SNS

Um apagão informático no SNS quatro meses depois de outro: a redundância prometida para o fim do ano tem de ter data e relatório

O sistema do SNS esteve parado durante a manhã, sem receitas nem processos clínicos. A SPMS promete uma infraestrutura com redundância até final do ano. A Fnam diz que as falhas são cada vez mais frequentes.

o servidor e a luz

O sistema informático do Serviço Nacional de Saúde, que dá acesso aos processos clínicos e à prescrição eletrónica, ficou indisponível ontem de manhã em todo o país. Segundo a vice-presidente da Fnam, Joana Bordalo e Sá, esteve parado desde as 10h00 até cerca das 12h30, quando começou a recuperar "muito lentamente", e "milhares de utentes ficaram sem consultas e sem receitas", embora não saiba quantificar. A SPMS, responsável pelo data center, indica que parte dos sistemas foi reposta por volta das 12h00 e que, perto das 15h00, quase todos os serviços estavam restabelecidos, incluindo o Registo Nacional de Utentes e a Prescrição Eletrónica Médica. Atribui a falha a "constrangimentos no data center", com duas interrupções sucessivas, e diz que a origem foi diferente da de 12 de junho. Anunciou uma nova infraestrutura, apoiada pelo PRR, "até final deste ano", com redundância em tempo real dos principais sistemas, e a reformulação da arquitetura energética do data center atual "para breve". A Fnam diz que o sistema é "obsoleto", que as falhas gerais são "cada vez mais frequentes" e que as parciais obrigam os médicos a reiniciar o sistema várias vezes numa manhã de consultas. A notícia que li não traz declaração do Ministério da Saúde.

Convém reconhecer o que a SPMS fez bem: o sistema foi recuperado no mesmo dia, a causa foi apresentada e há um plano com prazo. Também convém não confundir cada falha com a anterior: a própria SPMS diz que a origem desta foi diferente da de junho, e não sei, nem as notícias dizem, quantas vezes isto aconteceu em 2026.

Mas a promessa de uma infraestrutura com redundância em tempo real implica que hoje não existe redundância suficiente, e um país que guarda o acesso aos processos e às receitas de todos os utentes em sistemas que podem parar duas vezes seguidas por um problema no data center tem um problema de arquitetura, e não de azar. Dois dias antes, os enfermeiros denunciavam falhas na plataforma de vacinação. São sistemas diferentes, mas o utente não distingue: o que vê é um balcão onde ninguém consegue abrir o seu processo.

Faltam três coisas, e nenhuma exige grandes investimentos. Um relatório público do incidente, com a hora, a causa e o número de consultas e receitas afetadas. Um calendário com datas intermédias para a infraestrutura do PRR, e não apenas "até final do ano". E um plano de contingência claro para os centros de saúde, que diga ao médico o que fazer quando o ecrã fica preto, com receitas em papel validadas. A Fnam fala de milhares de utentes sem consulta: a SPMS deve ao país um número, e o Ministério uma declaração.