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A TRIBUNA DIÁRIA

"Três temas na balança. Onde o consenso ganha forma."
Edição N.º 3 Sábado, 26 setembro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Segurança · Combate ao narcotráfico marítimo

As leis mais duras não travam o tráfico - travam apenas os amadores

As apreensões de combustível destinado a narcolanchas quadruplicaram e entrou em vigor uma lei que pune quem transportar combustível em excesso ou tentar escapar aos radares. É um passo certo - mas resolve só metade do problema.

o combustível apreendido

A operação que a Polícia Marítima anunciou esta sexta-feira - onze detidos, uma narcolancha intercetada no estuário do Tejo, combustível e mantimentos preparados para reabastecer embarcações de tráfico ao largo da costa - é já a enésima repetição de um padrão que se tornou quase rotineiro nos últimos anos. O que muda agora é a lei: entrou em vigor legislação que prevê pena de prisão entre um e quatro anos para quem possuir lanchas rápidas sem registo, transportar combustível acima do limite legal, ou usar métodos para escapar aos radares.

É bom que exista finalmente um instrumento legal específico para isto. Mas há um risco de nos sentirmos satisfeitos demasiado depressa. As redes de narcotráfico que usam o Atlântico como autoestrada não são compostas por amadores que se deixam intimidar por uma nova moldura penal - são organizações internacionais, com capital suficiente para adaptar rapidamente a logística, mudar rotas, trocar tripulações.

A verdadeira medida do sucesso desta lei não será o número de detenções no primeiro ano, mas se, dois ou três anos depois, o volume de droga que continua a entrar na Europa por via marítima diminuiu de facto. Historicamente, sempre que se aperta um elo da cadeia - o combustível, desta vez -, o mercado adapta-se a montante ou a jusante, e a quantidade total de estupefacientes apreendidos tem continuado a subir ano após ano.

Não é motivo para não legislar. É motivo para não confundir mais uma moldura penal com uma vitória. Enquanto a procura de droga na Europa continuar a crescer, o Atlântico vai continuar a ser rota, com ou sem jerricãs à vista dos radares.

Diplomacia · Portugal e o Médio Oriente

As palavras de Rangel custam pouco - e talvez seja essa a questão

O ministro dos Negócios Estrangeiros voltou a apelar ao Irão para evitar uma escalada de tensão. É a enésima vez que Portugal pede moderação num conflito onde tem, na prática, zero influência - e isso não é necessariamente um problema.

duas vozes, uma linha tracejada

Ao longo do último ano, Paulo Rangel tem repetido, com pequenas variações, a mesma mensagem: apelo à contenção, recusa de qualquer envolvimento militar português, insistência na via diplomática. O apelo de ontem ao homólogo iraniano para "evitar uma escalada de tensão" é apenas o mais recente episódio de uma postura que já se tornou previsível.

Há quem veja nisto uma fraqueza - um pequeno país a fazer declarações que ninguém em Teerão ou em Telavive vai sequer notar. Mas essa leitura ignora o que a diplomacia portuguesa pode, de facto, controlar: garantir que Portugal nunca é arrastado para um conflito que não é seu, manter a coerência com os parceiros europeus, e preservar a reputação de um país que historicamente evita a escalada retórica mesmo quando é tentador fazer o contrário.

O problema não é Portugal falar sem poder - é a União Europeia, coletivamente, continuar a preferir comunicados a instrumentos de pressão reais. Enquanto os 27 países-membros mantiverem posições divergentes sobre sanções e alianças no Médio Oriente, cada apelo individual, incluindo o português, vai continuar a ter o peso de um gesto simbólico.

Isso não invalida o gesto. Uma diplomacia pequena que escolhe a moderação, mesmo sabendo que a sua voz pesa pouco, ainda assim ajuda a normalizar a ideia de que a escalada não é inevitável. Não é heroico. Mas, num Médio Oriente em permanente ebulição, é provavelmente a única política externa que um país do tamanho de Portugal se pode dar ao luxo de ter.

Clima · O verão que já não cabe no calendário

Já não há verão - há uma estação de calor que dura seis meses

Um estudo da NASA confirma o que os termómetros já vinham sugerindo: as ondas de calor acima dos 40ºC começam em maio e continuam até outubro em metade do mundo. Portugal está entre os países que sentem isso na pele.

MarMaiJulSetNovo calendário que já não bate certo

Há uma frase, atribuída a meteorologistas e repetida à exaustão nos últimos anos, que continua a ser subestimada: "Agosto perdeu a exclusividade do mês do calor." Um estudo recente da NASA confirma, com dados globais, que ondas de calor superiores a 40ºC já começam em maio e se prolongam até outubro em metade do planeta - um alargamento de vários meses face ao que era considerado "normal" há apenas duas décadas.

Portugal não é uma exceção a este padrão - é um dos seus exemplos mais citados. Nos últimos anos, o país bateu recordes de temperatura em maio, viu ondas de calor "fora de época" tornarem-se recorrentes, e observou o litoral, tradicionalmente mais fresco por influência do Atlântico, perder parte dessa proteção porque o próprio oceano está mais quente.

O que separa este fenómeno de uma simples "seca a mais" é a sua previsibilidade estatística: já não falamos de um verão anómalo isolado, mas de uma tendência estrutural que se repete ano após ano, com maior intensidade e maior duração. Isso devia mudar radicalmente a forma como planeamos tudo, desde o calendário escolar até à gestão de incêndios, passando pela arquitetura e pelo urbanismo.

Continuamos, no entanto, a tratar cada onda de calor como uma emergência pontual - com avisos laranja, recomendações da Direção-Geral da Saúde e pouco mais - em vez de a integrar como um dado estrutural do planeamento nacional. Enquanto isso não mudar, vamos continuar surpreendidos, ano após ano, por um calor que, estatisticamente, já deixou de ser surpresa.