O ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, pediu por carta ao ministro dos Assuntos Parlamentares para ser ouvido "com urgência" na comissão parlamentar de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação, de preferência antes do debate na generalidade do Orçamento do Estado para 2027. Rejeita "de forma absoluta e inequívoca" as suspeitas de conflito de interesses, que classifica de falsas e caluniosas, diz que nunca se escondeu do escrutínio e que "não vale tudo em política". As suspeitas, levantadas pelo PS e pelo BE, dizem respeito ao novo Regime Jurídico da Reabilitação Urbana, aprovado pelo Governo em maio, que reduz de dez para três anos o prazo para impugnar judicialmente atos autárquicos em matéria de urbanismo. Pinto Luz foi autarca em Cascais, e os partidos notam que o prazo de contestação de decisões desse tempo é agora encurtado por uma lei proposta pelo ministério que dirige. O líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, falou em "um caso particularmente grave", e o BE, por Fabian Figueiredo, fez acusações semelhantes. Na terça-feira, a comissão chumbou os requerimentos do BE, do Livre e do PS para o ouvir, e o PS anunciou que vai pedir a audição obrigatória. O Chega tentou mudar o seu voto depois da reunião, mas o presidente da comissão, do PSD, recusou-o, invocando uma regra da Conferência de Líderes. Num artigo relacionado, o ministro diz que "todos os pareceres técnicos externos e internos cumprem a lei".
Convém dizer, antes de mais, o que se sabe: são suspeitas de partidos, não factos apurados, e as notícias que li não explicam que benefício pessoal teria resultado para o ministro. Pinto Luz tem o direito de as rejeitar e o mérito de pedir para ser ouvido. Um prazo de três anos para contestar atos urbanísticos também tem defesa possível: dá segurança jurídica a quem constrói e a quem compra.
Mas a questão que as regras de conflito de interesses existem para pôr não é se o ministro agiu mal, é se podia ter participado. Quando uma lei encurta o prazo para contestar decisões em que o proponente teve papel como autarca, a pergunta é legítima, mesmo que a resposta seja que não há problema nenhum. E é desconfortável que a audição só tenha chegado à agenda depois de a comissão chumbar os requerimentos da oposição e de o ministro a pedir, quando devia ter acontecido por iniciativa da própria comissão.
O que se pede é concreto. Que o ministro, na audição, diga quando o diploma foi preparado, se declarou algum impedimento e quem decidiu que não havia razão para o fazer, e que publique os pareceres que diz cumprirem a lei. Quem acusa deve também sustentar o que diz, como o ministro pede, e especificar que decisões em concreto seriam beneficiadas. Só assim se separa uma suspeita séria de uma arma política, e a lei da reabilitação urbana, que interessa a muito mais gente do que ao ministro, deixa de ser discutida pelo nome de quem a propôs.