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A TRIBUNA DIÁRIA

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Edição N.º 30 Sexta-feira, 23 outubro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Media · A saída na Lusa

Duas versões da saída da diretora de informação da Lusa e nenhuma verificável: o Parlamento e a administração devem mostrar os papéis

Luísa Meireles diz que a administração lhe propôs sair "já". A administração diz que foi um pedido dela. Sem documentos à vista, o que está em causa é a independência editorial da agência pública.

duas versões

A diretora de informação da Lusa, Luísa Meireles, saiu a 12 de outubro, e as duas versões do que aconteceu não coincidem, segundo a cronologia publicada pelo ECO. Meireles diz que, depois de o presidente do Conselho de Administração, Joaquim Carreira, ter falado no Parlamento a 29 de setembro em alterações possíveis na direção, a administração lhe propôs a saída, com quitação datada de 30 de setembro, e que à pergunta sobre quando seria, a resposta foi "Já". Diz que foi "um despedimento em direto", que lhe propuseram adiar a saída para 23 de outubro por um "problema de interinidade" e que recusou, e que faz 70 anos a 23 de novembro, data em que o contrato passaria a prazo, sem intenção de dirigir a Lusa para além disso. Rejeita a alegação de conflito de interesses pela presidência da Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, e aponta como interferências a retirada de subsídios aos correspondentes de Évora e a contratação de uma jornalista para Bruxelas contra a sua decisão. Carreira afirma que a saída resultou de um acordo, na sequência de um pedido da própria, e que "nunca" houve ingerência nem "intervenção de ninguém fora da Lusa". A vice-presidente, Ana Alves, diz que a saída já se falava "antes do verão". Livre, PCP e PS pediram audições, aprovadas com o voto contra ou a abstenção do PSD, e um texto conjunto do PS e do PCP sobre os novos estatutos foi chumbado por PSD e Chega. O ministro Leitão Amaro, que na quarta-feira falou no Parlamento da reestruturação da RTP, nega "pressão do Governo" nas alterações aos estatutos. Pelo que li, nenhuma das duas versões é verificável.

Convém evitar conclusões que os factos não permitem. Pode ter havido um acordo razoável entre duas partes que já não se entendiam, e uma administração tem o direito de querer mudar uma direção. Também pode ter havido, como a ex-diretora sustenta, interferência da administração na redação. O que sabemos é que as duas versões são incompatíveis em quem propôs o quê, e que ambas têm quem as sustente.

O que torna o caso relevante é que a Lusa é a agência pública de notícias, e a independência da sua direção de informação é um bem que vai além das pessoas envolvidas. Num caso destes, a confiança vem dos documentos e menos das declarações. Existe, segundo a cronologia, uma proposta com quitação datada de 30 de setembro, um acordo escrito, e pedidos de documentos que a administração diz ter por responder.

O que se pede é simples. Que as audições aprovadas se realizem depressa e em público, que o Conselho de Administração entregue ao Parlamento os documentos e as datas, e que a ex-diretora faça o mesmo com o que sustenta. Quanto às alterações aos estatutos, que o Governo diga, por escrito, que mecanismo garante que a administração não escolhe nem afasta quem dirige a informação. Um ministro que nega pressão deve estar interessado em demonstrá-lo.

Economia · A Unbabel

A Unbabel vendida por 5,7 milhões de dólares: depois da queda da startup, falta saber o que aconteceu ao dinheiro público do PRR

Meses antes, a empresa negociava uma fusão avaliada em 250 milhões. Está agora em liquidação, com dívidas de 15,5 milhões e um crédito do IAPMEI contestado pelo fundador. O Estado tem o direito de saber o que se pagou e o que foi feito.

o preço de venda

A TransPerfect pagou 5,7 milhões de dólares (5,1 milhões de euros) pela totalidade dos ativos da Unbabel em agosto de 2025, meses depois de a startup portuguesa de tradução com inteligência artificial ter negociado uma fusão a uma avaliação de 250 milhões de dólares, cerca de 44 vezes mais, que não se concretizou, escreve o ECO. A empresa estava "quase sem liquidez", e o volume de negócios caiu 45,6% entre junho de 2024 e junho de 2025, para 8,5 milhões de euros. Um fundo espanhol, a Buenavista, avançou com uma ação de 12,75 milhões de euros para anular a venda. A insolvência foi declarada a 10 de março de 2026 e, a 2 de julho, os credores aprovaram por unanimidade a liquidação: as dívidas rondam os 15,5 milhões de euros, com 31 credores, entre eles dois fundos da Iberis, com 4,2 e 7,2 milhões. A Unbabel recebeu do PRR cerca de 14,1 milhões de euros, segundo o ECO de julho, numa agenda com projetos que deviam estar concluídos até 30 de junho de 2026. O IAPMEI reclama um crédito privilegiado de cerca de 1,3 milhões, que o fundador, Vasco Pedro, e o investidor Wuessen impugnam, dizendo que não houve ordem de devolução e que os projetos estavam maioritariamente concluídos. O IAPMEI invoca um "apoio não justificado" e a venda de bens sem autorização. Ontem, Vasco Pedro reagiu, segundo o título do ECO, dizendo que a gerência "atuou de boa-fé e tentou preservar valor".

Convém separar o que é um fracasso empresarial do que seria uma ilegalidade. Quase todas as startups falham, e vender uma empresa quase sem liquidez por um preço baixo não é, por si, crime nem má-fé. O fundador diz que agiu de boa-fé, e só um tribunal pode dizer o contrário. A avaliação de 250 milhões de uma fusão nunca concretizada também não prova que a empresa valia isso: foi uma negociação, e o mercado só confirma valores quando há quem pague.

Mas há dinheiro público no meio, e é aí que o Estado tem de ser exigente. Das informações que li, o IAPMEI diz que há apoio não justificado, o fundador diz que não houve ordem de devolução, e o valor, entre 1,3 milhões reclamados e cerca de 14 milhões recebidos, não é pequeno. A diferença entre os 13,3 milhões de que o ECO falava em março e os 14,1 milhões de julho também merece uma explicação.

O que se pede é transparência. Que o IAPMEI publique quanto pagou, por que projetos, o que verificou e o que considera por justificar, e que diga se foi pedida a devolução. Que o Governo diga, para as restantes empresas do consórcio de que a Unbabel fazia parte, quantos projetos estão concluídos. E que o Parlamento pergunte o que correu mal na avaliação de risco de pôr dinheiro do PRR numa empresa que estava, pelo que se sabe agora, quase sem liquidez.

Saúde · Os medicamentos da obesidade

O Estado vai pagar 15% dos medicamentos da obesidade a quem for seguido no hospital: um passo pequeno, num percurso ainda estreito

A portaria publicada ontem entra em vigor em fevereiro de 2027 e abrange só os doentes integrados no percurso hospitalar. Os médicos de família ficam de fora da prescrição, e o doente continua a pagar a maior parte.

o percurso estreito

Foi publicada ontem a portaria que cria um regime especial de acesso a medicamentos para o tratamento da obesidade: o Estado comparticipa 15%, no escalão D, para os utentes integrados num plano de acompanhamento hospitalar. Os doentes têm de ser seguidos no Núcleo de Cuidados Hospitalares não Cirúrgicos da Equipa Multidisciplinar de Obesidade da sua Unidade Local de Saúde, com apoio em atividade física, nutrição e psicologia, e ter processo clínico ativo no Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, da DGS. A prescrição cabe a especialistas em endocrinologia, medicina interna ou pediatria desse núcleo, a dispensa só se faz em farmácia comunitária, e a comparticipação dura 12 meses a partir da primeira dispensa, com renovação dependente de avaliação dos objetivos terapêuticos. O Infarmed monitoriza o regime, que só produz efeitos 120 dias depois da publicação, em fevereiro de 2027. As notícias da Lusa não indicam preços, número de doentes abrangidos nem custo estimado. Uma análise do Infarmed de dezembro de 2025, noticiada pelo DN, estimava para a população do percurso, entre 170 mil e 181 mil pessoas, um custo de 194,8 a 954,4 milhões de euros em dois anos para comparticipações entre 15% e 90%, e, num cenário de entrada faseada com 15%, 46,8 milhões no primeiro ano e 97,4 milhões no segundo. Na altura, o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Nuno Jacinto, dizia que o percurso "não é claro" sobre quem prescreve.

Convém reconhecer que é um passo. Até aqui estes medicamentos não eram comparticipados, e a exigência de acompanhamento multidisciplinar, de avaliação ao fim de 12 meses e de monitorização pelo Infarmed é uma forma séria de pagar só o que resulta. O Infarmed recomendou critérios explícitos pelo impacto económico, e a portaria parece segui-los.

Mas o passo é pequeno e o percurso, estreito. Comparticipar 15% quer dizer que o doente continua a pagar 85%, e como as notícias não dão o preço, não se sabe quanto isso é por mês. Acresce que a prescrição fica nos especialistas do núcleo hospitalar, pelo que li os médicos de família ficam de fora, o que deixa em aberto a dúvida que a associação deles já levantou. Se as equipas hospitalares não tiverem vagas, o regime existirá no papel.

O que se pede é concreto. Que o Governo publique o custo mensal que o doente terá de pagar, quantos doentes esperam que entrem e quanto vai custar ao Estado, e que diga quantas equipas multidisciplinares existem e com que capacidade. E que, ao fim dos 12 meses, os resultados sejam públicos: quantos perderam peso, quantos desistiram, quantos renovaram. Só assim se saberá se os 15% foram um primeiro passo ou o único.