A diretora de informação da Lusa, Luísa Meireles, saiu a 12 de outubro, e as duas versões do que aconteceu não coincidem, segundo a cronologia publicada pelo ECO. Meireles diz que, depois de o presidente do Conselho de Administração, Joaquim Carreira, ter falado no Parlamento a 29 de setembro em alterações possíveis na direção, a administração lhe propôs a saída, com quitação datada de 30 de setembro, e que à pergunta sobre quando seria, a resposta foi "Já". Diz que foi "um despedimento em direto", que lhe propuseram adiar a saída para 23 de outubro por um "problema de interinidade" e que recusou, e que faz 70 anos a 23 de novembro, data em que o contrato passaria a prazo, sem intenção de dirigir a Lusa para além disso. Rejeita a alegação de conflito de interesses pela presidência da Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, e aponta como interferências a retirada de subsídios aos correspondentes de Évora e a contratação de uma jornalista para Bruxelas contra a sua decisão. Carreira afirma que a saída resultou de um acordo, na sequência de um pedido da própria, e que "nunca" houve ingerência nem "intervenção de ninguém fora da Lusa". A vice-presidente, Ana Alves, diz que a saída já se falava "antes do verão". Livre, PCP e PS pediram audições, aprovadas com o voto contra ou a abstenção do PSD, e um texto conjunto do PS e do PCP sobre os novos estatutos foi chumbado por PSD e Chega. O ministro Leitão Amaro, que na quarta-feira falou no Parlamento da reestruturação da RTP, nega "pressão do Governo" nas alterações aos estatutos. Pelo que li, nenhuma das duas versões é verificável.
Convém evitar conclusões que os factos não permitem. Pode ter havido um acordo razoável entre duas partes que já não se entendiam, e uma administração tem o direito de querer mudar uma direção. Também pode ter havido, como a ex-diretora sustenta, interferência da administração na redação. O que sabemos é que as duas versões são incompatíveis em quem propôs o quê, e que ambas têm quem as sustente.
O que torna o caso relevante é que a Lusa é a agência pública de notícias, e a independência da sua direção de informação é um bem que vai além das pessoas envolvidas. Num caso destes, a confiança vem dos documentos e menos das declarações. Existe, segundo a cronologia, uma proposta com quitação datada de 30 de setembro, um acordo escrito, e pedidos de documentos que a administração diz ter por responder.
O que se pede é simples. Que as audições aprovadas se realizem depressa e em público, que o Conselho de Administração entregue ao Parlamento os documentos e as datas, e que a ex-diretora faça o mesmo com o que sustenta. Quanto às alterações aos estatutos, que o Governo diga, por escrito, que mecanismo garante que a administração não escolhe nem afasta quem dirige a informação. Um ministro que nega pressão deve estar interessado em demonstrá-lo.