O pedido do Sindicato Nacional da Guarda Prisional para que o Ministério Público reveja "todas as provas" que sustentam as conclusões da Provedoria de Justiça sobre as prisões portuguesas parece, à primeira vista, um exercício saudável de contraditório. Ninguém devia ser condenado, nem sequer institucionalmente, sem que as provas contra si sejam escrutinadas.
Mas há uma diferença entre pedir escrutínio e pedir para reescrever a narrativa. A Provedoria de Justiça não é parte interessada num litígio - é precisamente a instituição criada para fiscalizar o Estado quando este falha com os cidadãos, incluindo os que estão presos. Questionar sistematicamente cada relatório que aponta falhas, em vez de questionar as falhas em si, tem um efeito prático: atrasa qualquer correção.
Isto não significa que os guardas prisionais não tenham razões legítimas de queixa - as condições de trabalho e a exposição a agressões são reclamações antigas e documentadas. Mas confundir a defesa da classe profissional com a negação sistemática dos relatórios de maus-tratos é um erro estratégico que acaba por prejudicar os próprios guardas, ao sugerir que a corporação está mais interessada em proteger a sua imagem do que em resolver problemas estruturais.
Quem vigia os vigilantes precisa de poder trabalhar sem que cada relatório seja tratado como uma acusação pessoal. Se há provas insuficientes, que sejam escrutinadas - mas o objetivo final tem de continuar a ser prisões mais seguras para todos, guardas incluídos, não menos escrutínio sobre o que lá acontece.