Preço simbólico Diário independente de opinião Portugal

A TRIBUNA DIÁRIA

"Três temas na balança. Onde o consenso ganha forma."
Edição N.º 4 Domingo, 27 setembro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Justiça · Quem vigia os vigilantes

Quando o vigiado pede para investigar quem o vigia

O Sindicato Nacional da Guarda Prisional quer que o Ministério Público analise as provas que levaram a Provedoria de Justiça a apontar falhas nas cadeias portuguesas. É legítimo pedir prova - mas o pedido revela um problema mais antigo.

a torre e o olho

O pedido do Sindicato Nacional da Guarda Prisional para que o Ministério Público reveja "todas as provas" que sustentam as conclusões da Provedoria de Justiça sobre as prisões portuguesas parece, à primeira vista, um exercício saudável de contraditório. Ninguém devia ser condenado, nem sequer institucionalmente, sem que as provas contra si sejam escrutinadas.

Mas há uma diferença entre pedir escrutínio e pedir para reescrever a narrativa. A Provedoria de Justiça não é parte interessada num litígio - é precisamente a instituição criada para fiscalizar o Estado quando este falha com os cidadãos, incluindo os que estão presos. Questionar sistematicamente cada relatório que aponta falhas, em vez de questionar as falhas em si, tem um efeito prático: atrasa qualquer correção.

Isto não significa que os guardas prisionais não tenham razões legítimas de queixa - as condições de trabalho e a exposição a agressões são reclamações antigas e documentadas. Mas confundir a defesa da classe profissional com a negação sistemática dos relatórios de maus-tratos é um erro estratégico que acaba por prejudicar os próprios guardas, ao sugerir que a corporação está mais interessada em proteger a sua imagem do que em resolver problemas estruturais.

Quem vigia os vigilantes precisa de poder trabalhar sem que cada relatório seja tratado como uma acusação pessoal. Se há provas insuficientes, que sejam escrutinadas - mas o objetivo final tem de continuar a ser prisões mais seguras para todos, guardas incluídos, não menos escrutínio sobre o que lá acontece.

Desporto · Uma nova era às 72 anos

Jorge Jesus pintou as paredes de vermelho e verde - e ganhou logo à primeira

Aos 72 anos, o treinador mais velho de sempre a comandar a Seleção estreou-se com uma vitória sobre o País de Gales. Mais do que o resultado, o que se discute é se uma seleção precisa mesmo de "identidade" para vencer.

a parede repintada

Jorge Jesus tornou-se, esta semana, o treinador mais velho de sempre a comandar a Seleção Nacional - e fê-lo com um discurso quase tão firme como o resultado que conseguiu em Alvalade: 1-0 sobre o País de Gales, com um golo de Félix, na estreia oficial da nova era. Antes do apito inicial, o técnico já tinha mudado corredores, paredes e o "auditório" da Cidade do Futebol, trocando o branco pelo vermelho e verde e pelos lemas da sua filosofia.

Há uma tentação fácil de ironizar sobre isto - "pintar paredes não mete bolas na baliza" - mas seria um erro subestimar o peso simbólico que treinadores de sucesso atribuem consistentemente a este tipo de gestos. Símbolos não substituem talento, mas ajudam a fixar uma narrativa coletiva, e o futebol de seleções vive, mais do que o de clubes, de coesão emocional rápida entre jogadores que se encontram poucos dias por mês.

O verdadeiro teste não estará em Alvalade contra o País de Gales, adversário claramente inferior, mas nos próximos jogos, fora de casa, contra Noruega e Dinamarca, onde a "identidade" recém-pintada nas paredes vai ser posta à prova sem a vantagem do público. É aí que se percebe se uma equipa tem, de facto, uma alma nova, ou apenas um vestiário redecorado.

Não deixa de ser irónico que o país que discute recorrentemente a falta de visão de longo prazo nas suas instituições públicas - da justiça à saúde - encontre, no futebol, um exemplo tão claro do contrário: um homem de 72 anos a começar, literalmente, por mudar as paredes antes de mudar o resultado.

Sociedade · O jackpot e o país real

Cento e trinta milhões de razões para sonhar com uma saída

Mais um jackpot milionário do Euromilhões voltou a fazer sonhar o país esta sexta-feira. O que interessa não é quem ganhou, mas o que diz sobre nós o facto de continuarmos a apostar tanto na sorte.

1 em 139 milhõeso bilhete e a probabilidade

Sempre que o jackpot do Euromilhões ultrapassa a fasquia dos 100 milhões de euros, repete-se o mesmo ritual: filas mais longas nas apostas, notícias sobre "o que fazer se ganhar", e uma efémera sensação coletiva de que a sorte pode, de facto, resolver tudo. O sorteio desta sexta-feira, com 130 milhões de euros em jogo, não foi exceção.

É fácil descartar isto como simples entretenimento popular, e em grande medida é. Mas há um padrão incómodo nos números: a despesa em jogos sociais tende a subir precisamente quando a confiança na mobilidade económica através do trabalho e da poupança desce. Não é coincidência que o boom de vendas de bilhetes coincida quase sempre com períodos de maior pressão sobre salários, habitação e custo de vida.

Isto não é uma crítica moralista a quem joga - é uma leitura sobre o que a procura por "uma saída" através da sorte revela sobre o desespero silencioso de quem sente que os caminhos convencionais deixaram de funcionar. Quando o esforço individual parece cada vez menos suficiente para garantir segurança financeira, a lotaria transforma-se numa forma, ainda que estatisticamente inútil, de esperança organizada.

Ninguém precisa de deixar de sonhar com 130 milhões de euros. Mas talvez valesse a pena perguntar, coletivamente, porque é que tantas pessoas preferem apostar numa probabilidade de 1 em 139 milhões a confiar que o sistema económico lhes vai, um dia, dar aquilo que hoje só imaginam ganhar ao acaso.