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A TRIBUNA DIÁRIA

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Edição N.º 5 Segunda-feira, 28 setembro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Desporto · O primeiro campeão do mundo

Vasco Vilaça não é um milagre - é o resultado de um método

Dezanove anos depois de Vanessa Fernandes, Portugal volta a ter um campeão do mundo de triatlo. A pergunta que interessa não é como celebrar - é porque demorámos tanto tempo.

o degrau mais alto

Há vitórias que se celebram e vitórias que se estudam. O título mundial de Vasco Vilaça na Superfinal de Pontevedra - o primeiro de um português no triatlo de elite masculino, dezanove anos depois de Vanessa Fernandes o ter conseguido no feminino - merece as duas coisas. Aos 26 anos, o triatleta que foi quinto nos Jogos Olímpicos de Paris e bronze no Mundial do ano passado não apareceu do nada: chegou ao topo de um percurso longo, de progressão visível e consistente.

É tentador contar isto como uma história de génio individual, e há muito talento em jogo. Mas a leitura mais útil é outra: o triatlo português levou a Pontevedra a maior delegação de sempre - cinco atletas de elite num grupo de catorze - e isso não acontece por acaso. Acontece quando há uma federação que constrói pipeline, atletas que saem cedo para treinar e competir, e um projeto olímpico que os acompanha desde jovens.

O contraste com o resto do desporto nacional é difícil de ignorar. Num país onde o futebol absorve quase toda a atenção mediática e o investimento, modalidades como o triatlo vivem de financiamento intermitente e de bolsas de mérito. Cada título destes é, em parte, uma vitória sobre esse desequilíbrio - e uma prova de que a excelência não depende do tamanho do orçamento, mas da continuidade com que se investe.

Celebrar é justo. Mas a melhor forma de honrar Vilaça é perguntar o que faríamos se replicássemos este método - paciência, estrutura, formação de base - noutras modalidades e noutras áreas. Porque um campeão do mundo a cada dezanove anos não é um plano. É sorte, quando o que devíamos ter é sistema.

Educação · A melhor equipa de sempre

Portugal tem os melhores profissionais de sempre - e continua a tratá-los como plano B

A equipa portuguesa alcançou a melhor classificação de sempre no WorldSkills, em Xangai. O resultado é motivo de orgulho - e um espelho incómodo para a forma como o país continua a olhar para o ensino profissional.

a bancada e a medalha

Enquanto o país discutia futebol e jackpots, uma equipa de jovens portugueses conquistava, em Xangai, a melhor classificação de sempre no WorldSkills, o campeonato do mundo das profissões. Soldadores, mecatrónicos, cozinheiros, técnicos de instalações elétricas - jovens que competem durante dias, sob pressão de tempo, em projetos práticos avaliados ao milímetro. Portugal participa nesta competição desde 1950, e nunca tinha chegado tão longe.

A ironia é que este resultado extraordinário aconteceu num país que continua, culturalmente, a tratar o ensino profissional como uma opção de segunda linha - o caminho de quem "não conseguiu" entrar na universidade. É uma ideia antiga, teimosa e errada, e cada medalha de Xangai a desmente um pouco mais.

Basta olhar para onde há escassez de mão-de-obra em Portugal: construção, eletricidade, mecânica, restauração, indústria. Os setores que mais se queixam de falta de trabalhadores qualificados são exatamente aqueles onde estes jovens brilham lá fora. Há um desencontro evidente entre o que o país precisa, o que os seus melhores jovens sabem fazer, e o prestígio social que lhes é atribuído.

Uma medalha de excelência devia valer, socialmente, tanto como uma média de 18 na universidade. Enquanto isso não acontecer, vamos continuar a celebrar a equipa portuguesa em setembro e a lamentar a falta de técnicos qualificados em janeiro.

Tecnologia · A voz que já não prova nada

Quando a voz da sua mãe deixa de ser prova de que é a sua mãe

Os burlões já conseguem clonar a voz de familiares com poucos segundos de áudio para pedir dinheiro. A tecnologia avança mais depressa do que a nossa capacidade de desconfiar - e isso obriga a mudar hábitos antigos.

a voz e o seu clone

Durante milhares de anos, reconhecer a voz de alguém foi uma das formas mais fiáveis de saber que era essa pessoa. Deixou de ser. Hoje, segundo especialistas em cibersegurança, bastam alguns segundos de áudio retirados de uma publicação nas redes sociais para criar um clone convincente da voz de qualquer pessoa - e os burlões já estão a usá-lo, em Portugal, para telefonar a pais e avós a pedir dinheiro em nome de filhos e netos.

Os números ajudam a perceber a escala. Um estudo da Kaspersky estima que cada vítima portuguesa perde, em média, cerca de 800 euros por burla, e que mais de metade dos inquiridos que foram enganados o foram em menos de trinta minutos. Não é falta de inteligência das vítimas: é o efeito de uma técnica desenhada para explorar exatamente o que temos de mais humano - a urgência de ajudar quem amamos.

O Governo aprovou já uma proposta para obrigar os operadores de comunicações a reforçar o combate às mensagens fraudulentas, incluindo o bloqueio de mensagens suspeitas, e é um passo necessário. Mas nenhuma regulação chega a tempo de travar uma tecnologia que evolui semana a semana. A primeira linha de defesa vai continuar a ser, inevitavelmente, o comportamento de cada família.

E isso implica hábitos novos: combinar uma palavra-passe familiar para situações de emergência, desligar e ligar de volta para o número que já conhecemos, desconfiar precisamente dos pedidos urgentes. É estranho ter de desconfiar da voz de quem amamos. Mas é o preço de viver num tempo em que a voz, sozinha, já não prova nada.