Seis anos depois de duas gémeas luso-brasileiras terem recebido, no Hospital de Santa Maria, um tratamento de quatro milhões de euros para atrofia muscular espinhal, o Ministério Público avançou finalmente com uma acusação formal contra três arguidos: o ex-secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, o filho do Presidente da República, Nuno Rebelo de Sousa, e o antigo diretor clínico do hospital, Luís Pinheiro. A investigação, que chegou a alcançar o próprio Presidente antes de o Supremo recusar avançar contra ele, resultou afinal numa acusação bem mais estreita.
O que este caso sempre revelou, independentemente do desfecho judicial, não é um mistério sobre um medicamento específico - é uma pergunta incómoda sobre como funciona, na prática, o acesso a tratamentos de exceção no Serviço Nacional de Saúde. Há milhares de famílias portuguesas que esperam anos por consultas, exames ou medicamentos comparticipados, sem que um telefonema ao secretário de Estado alguma vez tenha entrado na equação.
A acusação agora deduzida terá de provar, em tribunal, se houve de facto abuso de poder e prevaricação, ou se estamos perante um caso de proximidade que nunca chegou a traduzir-se em crime. Mas o dano reputacional já está feito, e é sintomático que tenham sido precisos seis anos, uma comissão parlamentar de inquérito e múltiplas buscas para chegar a este ponto.
Se há uma lição a retirar já, independentemente da sentença, é que o sistema de exceções para tratamentos caros precisa de critérios transparentes e auditáveis - não de cartas pessoais trocadas entre gabinetes. Enquanto isso não acontecer, casos como este vão continuar a repetir-se, com ou sem nomes de peso envolvidos.