Dois jovens trabalhadores, de 28 e 26 anos, morreram soterrados esta semana numa obra em Porto Covo. O segundo corpo só foi encontrado depois de longas horas de buscas. São números que, escritos assim, secos, escondem o essencial: duas famílias que hoje enterram filhos, irmãos, talvez pais, por causa de um trabalho que devia ser rotineiro e seguro.
Portugal continua, ano após ano, entre os países europeus com mais acidentes de trabalho mortais por cada mil trabalhadores, particularmente na construção civil. Não é falta de legislação - as regras de segurança em escavações e valas existem, são conhecidas, são exigidas em qualquer curso básico de segurança no trabalho. É a distância crónica entre o que a lei exige no papel e o que acontece de facto num estaleiro, sobretudo quando prazos apertados e subcontratação em cadeia diluem responsabilidades.
O padrão que se segue a estas tragédias é, infelizmente, também previsível: comunicados de pesar, promessa de "apuramento de responsabilidades", talvez uma contraordenação à empresa. Raramente muda alguma coisa de estrutural na fiscalização preventiva - aquela que evitaria o acidente antes de ele acontecer, e não apenas o investigaria depois.
Dois jovens não deviam ter morrido a trabalhar esta semana. A única forma de honrar essa frase, em vez de apenas a repetir, é exigir que a fiscalização da segurança em obras deixe de ser reativa e passe a ser, finalmente, uma prioridade orçamental e política a sério.