Preço simbólico Diário independente de opinião Portugal

A TRIBUNA DIÁRIA

"Três temas na balança. Onde o consenso ganha forma."
Edição N.º 8 Quinta-feira, 1 outubro 2026 Edição arquivada · voltar ao arquivo
Trabalho · A conta que não bate certo

Os sindicatos pedem mais de 5%, as empresas orçamentam 3,2% - e ninguém está propriamente errado

A Frente Sindical reivindica aumentos salariais acima de 5% para 2027. As empresas portuguesas, segundo um estudo recente, preveem orçamentar apenas 3,2%. O fosso entre as duas exigências diz muito sobre o que realmente aconteceu aos salários nos últimos anos.

5%+3,2%os dois lados da balança

Todos os anos, por esta altura, o ritual repete-se: os sindicatos exigem aumentos generosos para o ano seguinte, as organizações patronais respondem com números bem mais modestos, e o Governo tenta equilibrar as duas pressões num acordo de concertação social que raramente satisfaz plenamente alguém. Este ano, a distância é particularmente visível: a Frente Sindical pede mais de 5% para 2027, enquanto os orçamentos médios das empresas portuguesas para aumentos salariais rondam apenas os 3,2%.

Esta distância não é apenas uma questão de tática negocial. Ela reflete uma realidade incómoda: segundo o INE, metade dos trabalhadores portugueses continua a ter um salário base bruto inferior a mil euros, apenas ligeiramente acima do salário mínimo nacional. Quando o "motor" da evolução salarial do país é o salário mínimo, e não a negociação coletiva generalizada, qualquer exigência sindical de 5% soa simultaneamente a ambiciosa e a claramente insuficiente para recuperar décadas de moderação salarial.

Do lado das empresas, o argumento dos 3,2% também não é irracional: num contexto de juros em alta e margens mais apertadas, aumentos generalizados acima desse valor pressionam a competitividade, sobretudo em setores de baixa produtividade onde Portugal continua preso há anos.

O problema de fundo não é esta negociação específica - é que o país continua a discutir, ano após ano, pequenos ajustes percentuais em vez de enfrentar a pergunta mais incómoda: porque é que a produtividade portuguesa não cresce o suficiente para sustentar aumentos salariais substanciais sem gerar tensão inflacionária ou perda de competitividade? Enquanto essa pergunta não for respondida, continuaremos a negociar décimas de ponto percentual em vez de resolver o problema estrutural.

Desporto · A estrela e o treinador

Ronaldo abandona o estágio - e o problema não é ele ter saído, é o que isso revela sobre a hierarquia da Seleção

Depois de ficar no banco contra a Noruega, Cristiano Ronaldo abandonou a concentração da Seleção antes do jogo com a Dinamarca, prometendo "revelar a verdade". Seja qual for essa verdade, o gesto já diz muito sobre quem manda, de facto, dentro do balneário.

7a camisola e a porta

Há duas semanas, Jorge Jesus explicava com toda a calma por que motivo tinha deixado Cristiano Ronaldo no banco contra a Noruega: "não era o momento certo", precisava de "características diferentes", mas isso "não significa que esteja fora das opções". Portugal venceu sem ele, com um golo de Gonçalo Ramos, e tudo parecia resolvido. Ontem, Ronaldo saiu da concentração antes do jogo com a Dinamarca, depois de falhar três treinos seguidos, prometendo "revelar a verdade" nas próprias palavras.

Independentemente de qual seja essa verdade - um desentendimento tático, uma questão de ego, ou algo mais concreto -, o episódio expõe uma tensão que acompanha o início desta nova era de Jorge Jesus desde o primeiro dia: como gerir um capitão de 41 anos, com um historial de serviço à Seleção sem paralelo, numa fase em que o treinador quer, claramente, construir uma equipa que não dependa dele.

Jesus já tinha dito, na sua primeira conferência de imprensa, que Ronaldo "nunca vai ser um problema". A frase está hoje a ser posta à prova da pior maneira possível: publicamente, a poucos dias de um jogo decisivo, com a imprensa internacional já a noticiar o episódio.

Qualquer que seja o desfecho, há uma lição válida independentemente de quem tem razão: nenhuma seleção, por mais talentosa que seja individualmente, gere bem estes episódios através dos jornais. Se há uma "verdade" para revelar, o lugar certo para a discutir era um gabinete fechado, não as redes sociais a horas de um jogo da Liga das Nações.

Economia · A barreira simbólica

Os combustíveis passaram os dois euros - e mais de metade do que pagamos é para o Estado

Portugal viu, pela primeira vez, o preço de um combustível ultrapassar os dois euros por litro. Mais de metade desse valor é imposto. Antes de culparmos o mercado internacional, vale a pena olhar para a fatura fiscal que continuamos a escolher manter.

imposto2€o litro e a fatia do estado

Há marcos simbólicos que doem mais do que o número sugere. A passagem da barreira dos dois euros por litro, verificada esta semana em várias estações de serviço, não representa só mais uma subida de preços - representa a confirmação de que Portugal continua entre os países da União Europeia onde reabastecer o depósito custa mais caro, com impostos a pesarem mais de 50% do preço final tanto na gasolina como no gasóleo.

A resposta mais comum a este tipo de notícia é apontar o dedo à geopolítica internacional, à instabilidade nos mercados de petróleo, aos conflitos que afetam rotas de abastecimento. Esses fatores são reais e não estão sob controlo português. Mas há uma parte do preço que é, inteiramente, uma escolha nacional: a carga fiscal sobre os combustíveis em Portugal supera a média europeia e a espanhola, ao ponto de impulsionar um turismo de abastecimento transfronteiriço que já é rotina em regiões como o Algarve.

O Governo já reagiu no passado com descidas pontuais do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos quando a receita de IVA disparava acima do esperado - um mecanismo sensato, mas que continua a ser aplicado como remendo reativo, não como política fiscal estruturada em torno de um objetivo claro: até que ponto queremos, deliberadamente, que o preço dos combustíveis em Portugal continue a penalizar quem vive em zonas sem alternativa de transporte público, ou quem depende do veículo próprio para trabalhar?

Reduzir impostos sobre combustíveis tem custos orçamentais reais, e nenhuma solução é gratuita. Mas fingir que a fatura dos dois euros é inteiramente culpa de fatores externos, quando mais de metade do preço é decisão nossa, é uma forma confortável de evitar a pergunta mais difícil: quanto estamos dispostos a cobrar a quem já não tem alternativa para se deslocar?