Todos os anos, por esta altura, o ritual repete-se: os sindicatos exigem aumentos generosos para o ano seguinte, as organizações patronais respondem com números bem mais modestos, e o Governo tenta equilibrar as duas pressões num acordo de concertação social que raramente satisfaz plenamente alguém. Este ano, a distância é particularmente visível: a Frente Sindical pede mais de 5% para 2027, enquanto os orçamentos médios das empresas portuguesas para aumentos salariais rondam apenas os 3,2%.
Esta distância não é apenas uma questão de tática negocial. Ela reflete uma realidade incómoda: segundo o INE, metade dos trabalhadores portugueses continua a ter um salário base bruto inferior a mil euros, apenas ligeiramente acima do salário mínimo nacional. Quando o "motor" da evolução salarial do país é o salário mínimo, e não a negociação coletiva generalizada, qualquer exigência sindical de 5% soa simultaneamente a ambiciosa e a claramente insuficiente para recuperar décadas de moderação salarial.
Do lado das empresas, o argumento dos 3,2% também não é irracional: num contexto de juros em alta e margens mais apertadas, aumentos generalizados acima desse valor pressionam a competitividade, sobretudo em setores de baixa produtividade onde Portugal continua preso há anos.
O problema de fundo não é esta negociação específica - é que o país continua a discutir, ano após ano, pequenos ajustes percentuais em vez de enfrentar a pergunta mais incómoda: porque é que a produtividade portuguesa não cresce o suficiente para sustentar aumentos salariais substanciais sem gerar tensão inflacionária ou perda de competitividade? Enquanto essa pergunta não for respondida, continuaremos a negociar décimas de ponto percentual em vez de resolver o problema estrutural.